Rivalidade etílica nos campos da Rua 1º de Maio.


Num passado não muito distante a Rua 1º de Maio organizava-se de uma forma espetacular para comemorar o Dia do Trabalho. O evento mais tradicional da época era a partida de futebol entre “Velho Barreiro e 51”.
A partida era disputadíssima e a rivalidade ás vezes fazia o jogo ficar meio violento.
Havia ainda outras equipes que disputavam aquele torneio como o time do “Ferro”, composto pelos funcionários da serralheria do Buttignon, e o “Kodak”, cujos jogadores eram retratistas da Praça Nossa Senhora Aparecida.
A comunidade da Rua 1º de Maio sempre foi um berço de bons jogadores de futebol e treinadores. Em campeonatos realizados no Penidão ou na Quadra Coberta de Vila Mariana os times formados no Bairro de Santa Luzia se destacavam e davam muitos trabalho para outras equipes consagradas. Um exemplo inesquecível foi a grande equipe do São Vicente, campeã por várias vezes nos gramados e quadras de Aparecida. Em campeonatos realizados na quadra da Escola Sólon Pereira se podia notar o nível técnico das equipes formadas basicamente com os moradores do lugar.
Dos treinadores, os que me aguçam a memória é o saudoso Zé Vermêio e o seu Zé Doceiro. Verdadeiros estrategistas no banco de reservas eles formavam belas e competitivas equipes. Isso sem falar no meu Tio Zé Dias que em outros tempos também formou verdadeiros esquadrões.
Mas o jogo entre “Velho Barreiro e 51” tinha um gosto especial em ser vencido. Pela manhã os “atletas” das duas equipes já iam “calibrando” o espírito nos botecos da rua. O romantismo daquela partida foi de repente o que a tornou uma espécie de lenda mesmo sem dar a mínima bola para a frígida aritmética do jogo. Eram jogadores desprendidos da responsabilidade do reconhecimento e cuja reputação sobrevive nas lembranças dos contemporâneos daquela época. Alguns só têm hoje a fama póstuma que os fizeram unanimidade. Houve quem disputasse aquela partida com fama de cometa, ou um meteoro que apareceu, brilhou e sumiu sem deixar vestígios.
Apontar um jogador pelo seu talento é apenas discernir a superioridade de espírito esportivo e de confraternização. Todos eram os melhores, pois tinham apenas a incumbência de chutar uma bola indevida sua direção que o acaso transformava em abstração de um gol.
Mas a bola que passasse pelo goleiro de um time não passaria pelo da outra equipe por essa ter a proteção de algum ex-jogador enterrado no Pio XII escalado instantaneamente pra salvar da derrota. Fazer uma subdivisão desse tipo é fazer com que o tempo não passe.
O tempo é o detalhe para consolidar a fama retroativa, onde eu destaco o Zé Milto, Boneco, Dôza, Pelado, Miltinho, Bacê, Bagre, Cuitelinha, Cotinha, Bernardino, Fuminho, Tcháia, entre outros.
Naquela época sempre aparecia algum “craque”. Alguém que merecesse a posteridade de cachaças pagas no balcão de um bar qualquer da rua devido as suas qualidades como jogador de várzea. Num desses embates, um “craque” da equipe do Velho Barreiro acabou chegando atrasado na rua. Apressado, parou num bar a fim de tomar a “saideira” e correr pro campo. Como era o “craque” da equipe ele podia beber de graça o quanto agüentasse nos botecos da rua, mas só cachaça “Velho Barreiro”. Chegando ao balcão a surpresa: o estoque da pinga Velho Barreiro havia acabado. Observando o desespero do “craque”, um membro da equipe adversária quis ser gentil e se ofereceu a pagar uma pinga “51” pro jogador. Meio desconfiado, ele aceitou e, num só gole, a pinga 51 foi jogada goela abaixo.
Foram dois os motivos que fizeram o jogador se arrepender de ter tomado aquela cachaça.
Primeiro: quem bebe, sabe. Trocar a marca da pinga pode dar um “revertério”. Não faz bem.
Segundo: depois disso, devido à “zonzura” que foi diferente, o “craque” acabou perdendo dois gols feitos que poderiam ter virado a partida em favor do Velho Barreiro que perdeu por um a zero.
Mas isso não foi nada. A rivalidade era tanta que o jogador nunca mais foi convidado a jogar e defender as cores do Velho Barreiro. Tudo por ter aceitado uma cachaça paga por um “dirigente” do 51 e que cujo ato foi delatado pelo dono do boteco que era torcedor roxo do Velho Barreiro.
Foi assim que a fama de “vendido” encurtou sua carreira nos campos da Rua 1º de Maio e o seu privilégio de beber cachaça de graça acabou indo pras “cucúias”...

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