E tudo foi ficando pra trás...

Dos pilares no incêndio,
somente um não veio ao chão.
Teve força, foi valente,
criou calos em sua mão.
Teve fé e sutileza.
A esperteza de quem ama.
Sua força principia,
o seu nome Zé Donâna.


A morte inesperada do meu amigo e vizinho Zé Donâna, minhas mais profundas inquietudes não vai deixar passar em branco. Nem tem como. Mas eu não quero intensificar este momento triste de agora. Quero relembrar o Zé Donâna da forma mais plena de como eu o via: um provinciano nato. Bairrista de brigar até com a própria sombra se preciso. “Encrenqueiro” que não tinha medo de nada. Era ele que subia a Rua Floriano Peixoto cantando. Era ele que entre um gole e outro, entoava sambas da antiga. O Zé dono de uma voz forte. O Zé Donâna das serestas no Bar da Zizi e do Bar do Seu Zé ali na Vicente Pasin. O Zé por muitos incompreendido.
De outros tempos, quero falar de um Zé que junto de seus irmãos Jabuca e Tio, formaram um trio que dava show no Campo da Santa defendendo as cores “do Santa Rita”. O Zé Donâna treinador daquele timaço do Gercã da década de 80. O Zé que não dava moleza pro Paulo, Nei e Carlão, o trio de ferro do Gercã na Quadra Coberta de Vila Mariana. O Zé “parmerênse” fanático desde os tempos do Oberdan Catani. Que ficava discutindo o futebol na Barbearia do Niquinho sem abrir mão de que o Palestra era o melhor time do mundo.
O Zé Donâna pescador. Das tarrafas e das redes remendadas. Do peixe frito com cachaça. O Zé das Maritacas gritando na gaiola do quintal. As “sortudas” que escaparam da cartucheira.
O Zé pedreiro “dos bão” que não rejeitava labuta. De mãos calejadas que levantava casas. Que superou a tristeza de um incêndio com força bruta para edificar novamente seu lar. O Zé pai, avô, amigo. O homem silencioso, mas de uma conexão fortíssima com todos. De coração grande, de amor retraído, represado no peito. O Zé Donâna deveras forte, o Zé lutador, parado na esquina da rua de casa como um guardião. O morador mais antigo do lugar que tinha mesmo que ficar eternamente por ali, desafiando o tempo físico, rondando as calçadas e zelando quem por elas passe. O Zé que merece ter seu nome numa placa na entrada da rua que fale com todas as letras possíveis “Rua Zé Donâna”.
O meu amigo Zé de muitas histórias. Que me prometeu passar a limpo suas memórias numa folha de papel e rechear este jornal com reminiscências sublimes daquele seu tempo. Resgate de pessoas que na nossa rua viveram. As raízes que ainda existem. Lembranças que infelizmente agora se perderam na imensidão do outro lado do muro e viraram lenda.
Era sempre pela manhã que nós dois trocávamos idéias e discutíamos assuntos. Tudo que prometi escrever acho que daria um livro de muitas páginas que ele jurava que compraria nem que se fosse fiado. Mal poderia prever que estaria agora falando de sua ausência.
Falar disso é difícil. Pesa. Faz a lembrança voar pra longe. Tem um cheiro esquisito. Algo que alerta a cumplicidade dessa travessia do homem pelo tempo. Tudo emoldurado por um dia chuvoso pra arrebentar ainda mais com a gente. Um instante que cortou o teor da folia e acinzentou o carnaval antes da hora.
Não queria estar escrevendo isso amigo. Queria abordar outros temas. Temas que eu e você Zé com certeza iríamos comentar na próxima vez que nos encontrássemos na Barbearia do Niquinho ou na esquina da nossa rua. Eu cansado pelo plantão agitado da madrugada e você fumando seu cigarro sem dever nada a ninguém.
Pela sua ausência agora, tudo que eu teria de escrever foi ficando pra trás.
É hora de descansar Nêgo Véio.

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