Meu anjo cão.


O poeta e diplomata Vinícius de Moraes dizia que “se o cachorro é o melhor amigo do homem, o Wisky é o cão engarrafado”. Meus traumas e minha saúde hoje me afastam disso tudo.
Agosto é a época em que reavivo a frase pejorativa de que é um “mês de cachorro louco”. Alguns traumas de infãncia envolvendo esse animal faz com eu sempre tente me afastar do bicho. Sempre me aproximei no entanto com “um pé atrás”, numa distância favorável onde eu possa sempre dar aquela famosa abaixadinha, razão pela qual todo cão acha que a gente vai pegar uma pedra pra jogar nele. “Cachorro que já levou tijolo no lombo, não dorme em olaria”, dizia meu pai.
No entanto, existem pessoas que amam o cachorro mais até que um próprio ser humano. Todos sabem que tem muito cão por aí que come, dorme e mora muito melhor que muita gente. São os sinais do tempo, já que hoje em dia, quanto mais conheço os homens, mais admiro os animais. De longe, mas admiro.
Toda noite, quando eu levo minha namorada Bernadete embora até a casa de sua irmã no final da Rua Santa Rita, sempre aparece um vira lata que vai acompanhando nós dois por todo o trajeto. O cão muitas vezes até retorna junto comigo. Eu acabo aderindo a presença dele sempre daquela forma, ele lá eu aqui. Mas pensamentos me colocam em xeque muitas vezes achando que de repente, anjos se disfarçam assim, feito cão.
O que a gente percebe é que nunca é o mesmo cachorro que vai com a gente. Isso também mostra como tem cachorro abandonado na cidade.
Retornando uma noite pra casa, um desses vira latas foi me acompanhando parecendo exalar uma certa fidelidade. Muita gente diz que quando a gente sente medo, também libera um cheiro específico que somente o cão pode sentir.
Há uma garagem de ônibus na Rua Santa Rita que tem dois cães enormes da raça Rotweiler. Parecem dois mostros que assustam mesmo presos pelo portão.
Em frente a garagem é o trecho em que eu sempre aperto meus passos só pra de repente não dar o azar de um desse monstros escaparem, pois vira e mexe, tem ônibus retornando de alguma viagem e o portão acaba ficando escancarado com isso.
Nesta noite, ao passar bem em frente a garagem, vi que um dos monstro de quatro patas estava solto, quase na calçada. Ele me avistou com um olhar mortífero de longe e deu dois passos à frente abaixando um pouco a cabeça. Eu gelei. Minhas pernas começaram a tremer e eu não sabia se parava ou corria. Acho que para ele tanto iria fazer. Por instinto, percebendo a movimentação do monstro negro, o vira latas que me acompanhava começou a latir. Sem se mexer o monstro ficou quieto e eu queria fazer o mesmo com o bendito vira lata antes que ele deixasse o Rotweiler zangado e viesse corendo arrastando nós dois, eu e o vira lata destemido.
Foi quando num assovio, o vigia do lugar chamou o monstro pelo nome. Numa obediência incrível, ele deu meia volta e o vigia então fechou o portão, trancando o bicho em seu lugar.
Realmente não sei se anjos se disfarçam assim. Mas foi o latido do vira lata que intimidou por alguns segundos o ataque e tempo ao vigia de trancar o portão da garagem.
“Branco como cêra”, nem vi direito por onde pisei, tamanha minha pressa em sair dali. O vira lata veio feliz ao meu lado como se nada tivesse acontecido. Eu, bicho homem, animal racional, tentava me refazer do susto e da vergonha de quase ter feito “tudo” nas calças.
Em casa, mais calmo após uma boa água gelada, dormi querendo esquecer a aventura que quase virou tragédia.
Pela manhã, algo “pastoso” e mau cheiroso na sola do meu sapato fez eu reviver o susto da noite anterior. Uma boa passada de pano no chão com muito desinfetante fez o cheiro do “côcô” de um outro cão sumir em alguns minutos.
Mas a lembrança do monstro negro de quatro patas não ia se apagar tão fácil da minha memória, assim como meu exalado medo nas suas narinas caninas...

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