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Saudades do Furacão do Vale.


Eu ainda sou do resto do tempo daquelas inesquecíveis “guerras campais” que aconteciam quando o extinto e saudoso time do “Furacão do Vale” jogava.
O Aparecida E.C. era naquela época um time a ser batido dentro do Estádio Municipal 17 de Dezembro, hoje Penidão. Eram jogos memoráveis que também marcou pelas incríveis brigas entre as torcidas.
A primeira vez em que fui ver o Furacão jogar estava junto com meu Tio João Dias. era um amistoso entre Aparecida e o São paulo Futebol Clube, cujo goleiro era um tal de Barbirotto. Barbirotto ou Abelha? Nem lembro. Só me lembro que mesmo meu tio João Dias, sãopaulino, torceu naquela tarde para o Furacão. O jogo terminou zero a zero.
Nas guerras entre Aparecida e Cruzeiro, contam que meu amigo Maurilhão, pulou o alambrado do campo pra brigar numa confusão que já tinha mobilzado as duas torcidas, acabando com o jogo. Ele simplesmente pegou um bandeira e saiu dando “bordoadas a três por quatro”. Mas ele nem percebeu que estava empunhando uma bandeira do time do Cruzeiro. Na corrida, foi muita gente correndo atrás dele, inclusive a nossa torcida, que pensou que ele era torcedor do “papagaio”...
Naquela época eu e alguns amigos chegávamos bem antes do horário do jogo, quando o estádio ainda estava aberto. Ao aproximar a hora do jogo, a gente se escondia lá atrás do gol do fundo, esperando o estádio encher pra gente emergir entre a torcida. Quando não dava pra ir mais cedo, o jeito era ficar no portão de entrada do campo perguntando para os adultos se a gente poderia entrar junto com eles. Criança acompanhada não pagava ingresso.
Lembro que durante as partidas, a torcida da arquibancada coberta comia toneladas de amendoim. A gente ficava com cara de pedinte, só olhando. Raramente, um ou outro torcedor oferecia alguns pra gente. Terminado o jogo, a gente saía vazendo uma varredura na arquibancada, recolhendo os amendoins caídos no chão pra matar a nossa vontade de verdade. Era sempre assim.
A maior rivalidade do Vale do Paraíba tinha seu ponto máximo quando a Esportiva de Guaratinguetá enfrentava o Furacão. Vencer o rival neste “derby” representava mais que o título do campeonato, era a glória que duraria até o próximo embate.
Empurrados pela lendária e fanática torcida “Explosão”, o Aparecida só não conseguiu o acesso para a primeira divisão de profissionais por detalhes. Coisas do futebol que não privou a Esportiva que esteve uma vez disputando a primeira divisão na década de 60.
Além do centroavante Márcio Heleno, que fez mais gols em uma só temporada entre todos os jogadores de todos os campeonatos disputados no Brasil em 83, o mentor daquela equipe era o técnico Lalí.
Possuidor de uma paciência fora do comum, Lalí ficou marcado por estar sempre trazendo jogadores de Minas Gerais para compor o elenco. Um “paizão” entre os boleiros.
Alguns acabaram ficando até hoje por essas bandas como o inexpugnável goleiro Borra-chinha.
Lalí, certa vez, quando instituíram o “tempo técnico” durante as partidas do Campeonato Paulista, se dirigiu com toda sua lentidão até a área onde os jogadores esperavam pelas instruções do treinador. Contam que quando o Lalí chegou na “roda”, o árbitro determinou através do apito o fim do tempo técnico. O Lalí então voltou lentamente para o banco de reservas atrasando o reinicio da partida, pra delírio da torcida presente. A tática, brincava ele, era “ganhar alguns minutos” para o final do jogo caso o Aparecida estivesse perdendo. Lalí era ímpar.
Em 1996, época de eleição, o Aparecida disputou a série B2 do Paulistão apoiado por um grupo de investidores japoneses. O eterno Kim Jóia era seu presidente.
Alguns jogos dessa campanha foram memoráveis. A gente levava ao estádio um “bumbo” e uma “caixa” e ficava atrás do gol, em frente ao Bar da Zizi, gritando o nome do Furacão e dos candidatos que chagavam. O Wellington e o Kinka eram os mais assediados com nossas músicas e despejavam fichas e mais fichas de cerveja pra galera beber. E que bebedeira...
Num jogo decisivo contra o Jacareí, o Maurizinho Rocha não quis emprestar os instru-mentos pra gente tocar. Mesmo assim, sem permissão dele, a gente entrou na casa da Dona Irene e conseguimos levar os instrumentos para o estádio. Quando a gente estava bem tranquilo fazendo a festa e bebendo a “cervejada” dos candidatos, eis que entra o Maurizinho querendo matar a gente pelo “roubo”. Tivemos que pensar rápido. Ao aproximar da gente com cara de poucos amigos, nós começamos a cantar “é Maurizinho, é Maurizinho”. Ele se desmontou.
Noutra decisão, o Furacão iria jogar na distante cidade de Andradina, precisando vencer. Andradina é última cidade do Estado de São Paulo, quase no Estado de Mato Grosso do Sul. Era uma quarta feira chuvosa e escura aqui em Aparecida e a gente conseguiu escutar o jogo pela Rádio Monumental trabalhando lá na fábrica do seu Célio. Dois a zero para o Aparecida e muita festa.
Também na década de 90 a Federação Paulista criou a Copa Vale, disputada por todas as equipes do Vale do Paraíba. Em sua primeira edição, o Aparecida chegou à final contra a forte equipe do São José. Na primeira partida no Estádio Penidão, fomos derrotados, onde, no lance do gol da àguia, o zagueiro tentou recuar a bola para o goleiro e ela caprichosamente parou numa poça d’água, já que choveu muito antes da partida, e o atacante fez um a zero. Antes disso, houve um penalti para o São José que o jogador mandou por cima da trave.
Neste lance aconteceu algo curioso que eu pude apreciar. Quando o juiz marcou o penalti, o Bar da Zizi, atrás do gol, estava lotado. Aliás, eu nunca vi o Penidão com tanta gente como naquela tarde. No meio da multidão, em sua maioria Aparecidenses, alguém vibrou com a marcação do penal. Meu amigo Roger, filho do Velércio, conseguiu detectar quem era o Joseense que havia gritado e se dirigiu até ele dizendo: “ meu amigo, torça pra que ele erre o penalti, pois se ele acertar, você está perdido”... Por sorte dele e da nossa torcida, o jogador do São José jogou a bola lá no SAAE.
Em São José dos Campos, com o placar adverso na primeira partida, sucumbimos com outra derrota e a Águia do Vale foi a campeã.
Numa tarde de muita chuva, com o estádio vazio, alguns de nós acompanhávamos a partida entre Aparecida e Guapira, pela série B2. Todo jogo era decisivo e o empate não adiantava para o Furacão. O 1 a 1 perdurou uma eternidade até que, aos 46 do segundo tempo, lá no gol do fundo, sob um temporal, o atacante Cris, que foi namorado da Fernanda Macedo, conseguiu o impossível. Alçada a bola numa cobrança de escanteio, ele girou o corpo e fez o gol de bicicleta. Foi demais ver o Cris correndo até a gente pra comemorar no alambrado, mandando beijos pra Fernanda. Comandados pelo Carlinhos Bandidão, caímos na lama, dançando e comemorando a vitória que pareceu impossível.
A equipe da terra da Padroeira do Brasil, no final da década de 90, conseguiu ainda três acessos seguidos nas divisões intermediárias do futebol paulista. Mas devido a falta de mais lugares no estádio, que eram determinados pela Federação, acabou nem disputando a última série conquistada. A Esportiva estava desativada. Mesmo assim eles não foram capazes de emprestar o Dario Rodrigues Leite pra gente dar sequência naquela disputa e futuramente, aumentar a capacidade do Penidão.
Foi o início do fim daquele time que sempre trouxe muita alegria aos aparecidenses de verdade que tinham o Furacão como uma verdadeira paixão clubística. A velha rivalidade e a antiga “rincha” que acirravam os nervos dos mais fanáticos foi ficando pra trás.
Quantos jogos pareceram vencidos pela bronca do Zé Adolfo na arquibancada coberta.
Quantos gols o gordinho Márcio Heleno foi capaz de inventar na medida do impossível.
Quantas estratégias do Lalí foram responsáveis pela nossa alegria.
Quanto empenho do meu amigo Kim Jóia foi capaz de fazer a gente sonhar com a primeira divisão de profissionais.
Quanta saudade ficou...

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