A fama dos imortais.

Acoplando estórias esparsas nesse papel, passo a recordar de um tempo único quando acontecia os “saraus” no Bar da Cristina, ali na Avenida Getúlio Vargas, que durou pouco tempo devido a federalização daquela avenida e posteriormente a proibição de bebidas alcoólicas. Era o mesmo lugar onde tempos atrás funcionou o “Sobrado 767 do Claudinho”.
O lugar tinha o dom se aguçar o imaginário, a começar pelo belo piano num canto e um violão sempre à espera de algum artista que pertencia à madrugada. Uma penumbra extasiante e quadros na parede. Um espaço que cheirava a poesia. Sempre tinha algum amigo da Cristina que se levantava de repente da mesa e começava a recitar versos. Era sensacional.
Lá pelas tantas, com o bar já meio vazio, a Cris tomava seu acervo de livretes e esparramava-os sobre a mesa, fazendo a gente escolher um deles e abrir suas páginas aleatoriamente. Depois, cada um escolhia um poema ou fragmento pra ler. Era só gente imortal, desde Fernando Pessoa e Camões até Drummond e Bandeira. Nada pagava o amigo Piriquito lendo versos de Fernando Pessoa entre a fumaça do cigarro e com a cortina balançando com a brisa da madrugada lá atrás.
Quando chegava a minha vez, com a sobriedade um tanto defasada que já não ajudava a ler aquelas letras miúdas dos livros, eu começava a recitar versos de improviso. Olhava para o livro e soltava versos inventados. Era muito divertido, pois sempre tinha um entendido que dizia “essa do Drummond eu não conhecia” ou “esse Manoel Bandeira é o melhor de todos”...
Era quando os imortais da liteatura se enchiam ainda mais de glórias. E eu, pobre mortal, continuava ali, preso naquela clandestinidade, sem se fazer dono daquele rasgo poético abrupto. Alguém que eles também já foram um dia.
Mas era onde a inspiração egoísta do poeta se transformava na chave que abria as portas da sensibilidade coletiva.
Regadas a muita MPB e cerveja, muita coisa se perdeu na poeira do esquecimento. Alguns livretes da Cristina ainda guardam relíquias que escrevi quando tomava uma cerveja num canto qualquer do bar. Fragmentos tão esplêndidos quanto improvisados.
Certa vez, meu amigo Tavinho Piza já estava cansado de mostrar seus versos a um amigo, onde o camarada sempre vinha com a mesma crítica:
“Você é capaz de escrever melhor”. “Isto está uma bela porcaria”.
Resolveu então o baluarte fazer um último poema e entregar ao “expert”.
Só que, ao invés de assinar seu nome, escreveu em baixo com uma bela caligrafia o nome “Vinícius de Moares”. O amigo “entendido” do assunto, ao ler o poema, foi categórico:
“Isso sim que é poesia. É assim que você deveria escrever”. Coube ao baluarte ter que desferir alguns sopapos no amigo que a partir daquele dia se recolheu à sua insignificância, deixando o Otávio ser para a poesia um dos seus grandes expoentes.
O encanto de alguns versos muitas vezes fluem tão naturalmente e de forma tão bela que é possível duvidar da procedência poética da frase. Mas creia. Creia piamente na pureza das palavras, pois é exatamente assim que você reconhece um poeta...

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