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Um velho lugar.


Minha rua é aquela que me separa e me aproxima de um lugar eterno, do qual a maioria das pessoas ainda teme, como se soubessem com certeza se tratar de um lugar onde toda vida se acaba, apossada apenas de um amontoado de terra, algumas saudades, velas e orações.
Vivi sempre buscando entender porque este velho lugar sempre me trazia aquele medo grande.
A força da imaginação me tomava por inteiro e isso era um caminho difícil de percorrer, pois de repente, eu poderia atingir sem querer o real das velhas estórias de assombração que ouvia contadas pelo meu saudoso avô Zé Pedro.
Esse lugar era na época um dos limites de um improvisado campinho, onde imaginávamos nossos longos campeonatos serem as mais sérias disputas futebolísticas do mundo. De todo o mundo.
Fora todos os mistérios, esse lugar também soava em mim como o “ponto alto” da coragem dos meninos mais velhos. Fazia-me pensar em flores e me dava lições de partir a todo instante.
Era um labirinto que fazia meu pensamento se perder sem nenhuma constatação.
A gente até arriscava brincar lá dentro quando às cinco da tarde o “seu” Dito coveiro, que era muito bravo e odiava a molecada, trancava os portões encerrando o seu dia de trabalho. Um trabalho que eu achava muito estranho. Era um tempo que, apesar da invasão, a gente tinha certo respeito e pedia “perdão” sempre que pisávamos num túmulo qualquer. Coisas que eram uma espécie de “precaução” pra que nenhuma alma penada fosse capaz de puxar a nossa perna durante a noite. Foi assim que por causa desse lugar perdi infindáveis noites de sono, assustado com imagens sinistras que o sol do dia, divinamente, desprendia de mim.
Lembro-me que nessa época havia um “bebum” conhecido no bairro Santa Rita, um tal de “Gerardo Cobra”. Esse sujeito trazia sempre consigo um imaginário rico, o colocando como personagem principal de muitas estórias estranhas que terminavam sem nenhuma explicação.
O mistério rondava o velho e aguçava meu medo de menino.
Mas, seria tudo verdade? Ele era um sujeito que parecia trazer tanta paz.
E foi numa noite comum que ele, bêbado por força de alguma circunstância, deixou-se adormecer dentro daquele horripilante lugar, ultrapassando o tempo em que o seu portão permaneceria aberto. De idade avançada, seria impossível o “Gerardo Cobra” pular o muro.
Totalmente alheios a tal fato, lá estávamos nós iniciando mais um jogo de futebol.
Bola vai, bola vem e naturalmente, como ás vezes acontecia, a “pelota” caiu caprichosamente dentro do misterioso lugar. Por várias vezes ela ia rolando pelo lado de dentro do muro e acabava saindo por um dos vários buracos que havia para escoar água de chuva.
Mas desta vez foi diferente. A bola não veio pelo buraco.
Nossa tensão aumentava na medida em que chegava a hora de entrar pra casa.
E logo surgia a velha discussão de “quem” iria buscá-la.
Mas, esboçados de coragem e companheirismo íamos todos juntos, num consenso nosso, natural.
Apesar da escuridão da noite sem lua não foi difícil achar a bola. Difícil foi dar de cara com o “Gerardo Cobra” se levantando de repente por de trás de uma velha sepultura...
Foi o maior de todos os sustos de minha vida!
Até hoje não me lembro se trouxemos a bendita bola ou não. Só sei que nessa noite voltamos correndo pra casa sem mesmo nossas mães chamarem por nós.
O tempo passou e se encarregou de nos afastar.
O Gerardo Cobra nem é lembrado mais. Deve estar dormindo definitivamente por lá. Nem sei.
E aquelas noites de cemitério conseguiram construir com seus recursos simbólicos um universo imaginário que hoje, anos e anos depois, além de engraçado, faz tudo soar gostosamente com o nome de saudade.

Menção honrosa no Concurso de Contos 2004

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