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Papo furado


- O que você escreveria na lápide de sua sepultura amigo?
-Meu nome é logico. Se não, como as mulheres iam me encontrar?
-Eu sei disso sua besta. Estou falando de uma última frase. Um epitáfio.
-Ah sim. Escreveria “aqui jaz um eu morto pela saudade de alguém”.
-Nossa que coisa mais triste. Morrer já é triste e você vem com essa coisa móbida. Pensa numa coisa mais pra frente.
-Algo futurista por exemplo?
-é.
-E existe coisa mais futurista que a morte?
-Futurista não é bem o termo. Algo que possa fazer as pessoas pensarem um pouco quando lerem. Algo que tenha a ver com o que você foi quando vivo. Por exemplo, se você fosse músico poderia escrever assim “minha vida foi iluminada como SOL. Por FAvor, não tenham DÒ de mim. Interessante não achou? Viu como se encaixaram as notas musicais?
-Que coisa de mal gosto. Sem nenhuma criatividade. Se ele tocasse saxofone você iria querer colocar “Aqui jazz”, não é ? e se fosse um jogador de futebol talvez você colocasse “ aos 49 minutos do segundo tempo, a bola foi para a linha de fundo e o juiz apitou o final”...
-Está vendo, é só pensar um pouco que você consegue algo mais interessante. E o que você acha de “pensamentos arquivados esperando por novas mesas e garrafas” ?
-Com certeza este morreu de cirrose. Não combinaria comigo. Tem mais a sua cara. Aliás, porque você não coloca na sua lápide “valeu mais ser um bêbado conhecido do que um alcoólatra anônimo” ?
-Engraçado, com coisa que você não bebe. E o que acha de “a muitos iluminou. Hoje habita a escuridão” ?
-Esse cara eu conheço. É aquele que trabalhava na Eletropaulo, não é?
-Engraçadinho...
-Mas, e se eu escrevesse em minha lápide “esqueci-me dessa vida. A memória foi buscar outra não sei onde”. Que tal?
-Achei meio espírita. Você não é espírita, é?
-Católico não praticante assim como você.
- E “o céu é o limite”, que tal?
-Isso combinaria mais se você fosse um piloto de avião...
-Às vezes não, sabia? Com essa onde de crise aérea, pra muitos pilotos ultimamente daria mais certo escrever “o chão é o limite”.
-Que humor negro!
-E que tal “se fosse antes eu morreria mais feliz”?
-Vem você de novo falar em morte. Morrer nunca foi sinônimo de felicidade.
-Isso depende meu amigo. Quanta gente ainda diz “eu morro de amores por você”. Quem ama está feliz, certo?
-É... olhando por este prisma...
-“Aqui sinto saudades de mim mesmo”. Que acha?
-Meio complexo. Seria mais fácil escrever “não estou aqui”.
-Pra você que é meio metido a poeta ficaria bonito “este silêncio agora são suas obras completas”.
-Sai fora. Tá querendo me enterrar é?
-A verdade é uma só: como teremos certeza de que vão colocar na nossa lápide a inscrição que a gente escolher?
-Taí uma boa questão. Gente rica põe no em testamento e tudo mais. Registra até em cartório.
-Isso já é frescura...
-Por falar nisso, você já tem o tal do Plano Mútuo?
-Ainda não. E você?
-Pra ser bem sincero, eu não tenho nem terreno no cemitério. Nem no velho, nem no novo. Vou ter que morrer de pé porque não tenho onde cair morto...
-Então porque você está preocupado com epitáfio e lápide meu amigo?
-Mas foi você quem começou com este papo furado de morte. Sai pra lá urubu, bate na madeira. Eu hein!...

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