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Das profundezas do sono.


Tardes de glória eram os sábados quando o Bar do Ditão ficava ao lado do Estádio Penidão, na Ponte Alta. A gente saía da Santa Rita só para desafiar os “cobras” do jogo de palito daquele bairro e disputar na diversão uma cerveja gelada. No jogo havia a mania de, ao invés de cantarmos o número, chamarmos pelo nome dos colegas que já tinham falecido. Cada nome correspondia a um determinado número, conforme a ordem em que a pessoa havia morrido. Era uma forma de tê-los sempre por ali numa espécie de homenagem saudosista.Hoje eu não me recordo bem a seqüência. Só me lembro que o falecido Zé Pelé era, logicamente, o 10. Paulinho do Jaime era 9, um outro amigo nosso, o Magela, era o 8. Parece-me que o finado Jair do Táxi era 7 por contar muita mentira, e daí por diante.
A “tiração de sarro” maior era pegar no pé do Andrezão, ex-policial rodoviário, dizendo que ele seria o próximo número subseqüente da lista. E olha que o tempo passou e muita gente “foi” na frente do André que está firme e forte até hoje.
O “timaço do palito” era composto pelo, Toninho do oito, Boca, Azeitona, Edgar, Roberto Gouveia, Zé Francisco, Raul do “escondirijo”, Ditão, eu, Celinho, Loro, Andrezão, Tadeu, Caetano, Varti de Barros, Leite, Toninho Prefeito do Potim, Carlinho Caixa D’água, Tarone, Ligeirinho, Vitor Prado, Zé Goró, Záu, Branco,Cristino,Cacau Guarino, Seu Didi e alguns “lambetas” que iam aparecendo para levar uma “surra” pela tarde afora. Até hoje tem gente que me chama de Santa Rita, por tanta farra que a gente fazia quando, na rodada, não pagávamos nem uma cerveja.
E para deixar o pessoal ainda mais humilhado a gente compunha na hora um montão de paródias de marchinhas exaltando nosso bairro e “afundando” a Ponte Alta deles.
Quando isso acontecia, nós pegávamos qualquer coisa que estava mais perto como porta guardanapo, pacote de amendoim torrado, garrafa de pinga na prateleira, fazia disto um troféu e saía dando “volta olímpica” pelo bar. Era uma festa.
Mas também quando a gente perdia a farra deles com a gente era dobrada. Tudo com muito respeito, fruto de uma amizade inigualável.
Uma vez, no meio de um jogo, o Zé Francisco, como sempre, acabou cochilando de pé, com a mão estendida sobre o balcão, esperando a vez para “cantar”. Quando chegou a sua vez, ele acordou levando o maior susto e cantou sem pestanejar:
-Zé Pelé!
E não é que na seqüência, ao abrirmos as mãos, deu justamente o 10 do Zé Francisco? Acho que foi a nossa mais humilhante derrota por lá. Não foi fácil aguentar a farra deles em cima da gente. Afinal, fomos vencidos por um “Pontealtense” que simplesmente tinha vindo das profundezas do sono para ser campeão...

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