A única vez.


O universo cultural de um balcão de bar é incomensurável. Dentro de uma mesma proporção, transcende também um lado histórico de incalculável valor.
Não há o que pague por certos momentos e por alguns companheiros que se acotovelam junto da gente neste espaço.
Meu amigo Chico Lorena, profundo conhecedor e apreciador dos Beatles, dias desses tirou do baú de sua vasta memória um acontecimento que deve constar nos autos desse quinzenal pelo valor histórico envolvido numa época de repressão.
Eu e o Chico não podemos nos encontrar que automaticamente “cantarolamos” uma canção dos Beatles antes mesmo da conversa rolar.
Nesse dia, na Toca do Tatu, fomos surpreendidos pelos “discos de vinil” que o Tatu tem em seu bar e que vez ou outra são tocados na velha vitrola.
O Chico através disso começou a recordar do tempo em que trabalhava na Rádio Aparecida em 1967, época auge da carreira dos “quatro garotos de Liverpool”. Todo dia, várias vezes ao dia, o Chico Lorena, que comandava a programação musical da rádio, colocava o “iê-iê-iê” britânico pra tocar. “Eight days a week”, como dizia uma canção dos Beatles.
Nesse tempo, época de ditadura militar sufocante, as rádios, assim como qualquer meio de comunicação no país, sofriam grande intervenção da censura. Era impossível abordar alguns temas ou tocar alguma música sem uma prévia inspeção do comando militar. Peças de teatro e novelas transmitidas pelo rádio tinham seus textos inspecionados de forma viril. O país não contava com a liberdade de expressão.
Num certo dia, o Pe.Vítor, em seu programa diário, teve um comportamento diferente diante dos microfones e ficou por mais de quinze minutos falando num tom bem crítico sobre os direitos humanos no Brasil. Munido de uma personalidade forte surpreendeu todo mundo com o pronunciamento.
Passado o susto, o dia teve então seu curso normal até o fim do expediente.
Á noite aconteceria no Umuarama Clube o tradicional baile de aniversario do UCA, evento que reunia a “nata” da sociedade local. Um baile imperdível.
A Rádio Aparecida ficava na praça da igreja velha, ao lado do templo. Local onde depois funcionou por muitos anos o destacamento da policia militar. Que ironia.
Apossado de seu terno mais requintado, Chico se dirigiu até a rádio a fim de poder esperar sua companheira se aprontar para o baile. Assim jogaria um resto de conversa fora e poderia “curtir” um som. Estavam por lá o Vitor Prado e o saudoso Leite Sobrinho que esperavam a meia noite para poderem fechar a rádio e também se aprontarem pro baile. A conversa ainda girava em torno da coragem que o Pe. Vítor teve durante o dia em dizer tudo que disse ao vivo para que o país inteiro pudesse ouvir.
De repente, ouve-se a porta de aço da rádio subir com toda força, causando um barulho enorme. Todo mundo lá dentro achou que era a criançada fazendo bagunça como sempre. Ganhando a escada, Chico Lorena foi dar uma “bronca” na molecada quando encontrou com uma meia dúzia de homens fardados do exército e da aeronáutica subindo apressadamente a escadaria.
O mais graduado deles, com algumas folhas de papel nas mãos perguntou:
-Quem é o responsável pela emissora?
O Vitor Prado se dirigiu aos militares dizendo que aquela emissora pertencia aos padres Redentoristas que naquela hora não se encontravam no local.
O militar disse ainda com sua autoridade:
-“O comando enviou esta autuação devido a um pronunciamento considerado subversivo feito nesta emissora no meio dia de hoje. Temos a missão de tirar a rádio do ar por tempo indeterminado até segunda ordem. É necessário que lacremos a chave principal que sustenta a energia e os comandos básicos da emissora, assim como a entrada principal deste órgão de imprensa conforme solicitação dos nossos superiores”.
Aquelas ordens então foram seguidas à risca e depois de tudo feito o Vitor Prado foi convidado a seguir junto dos militares para dar alguns esclarecimentos.
Em poucos minutos o Pe. Vitor foi comunicado do fato ocorrido e conseguiu no dia seguinte a liberação para trazer a rádio ao ar novamente. Por ser uma rádio católica, algumas influências ajudaram para que tudo voltasse ao normal.
Com sua sabedoria, o Pe. Vitor continuou ainda a levar seus ensinamentos e idéias sociais aos quatro cantos do Brasil pelas ondas da R.A., evangelizando da maneira mais inteligente possível, amparado nas razões humanitárias que eram ás vezes ignoradas pelo regime. Nosso amigo Chico Lorena, que por sorte estava fora do horário de trabalho naquela noite, pôde ir tranquilamente ao baile e continuar tocando os discos dos Beatles como sempre fazia. Foi a única vez em mais de 50 anos, devido a repressão militar, que a Rádio Aparecida foi fechada e deixou de ser ouvida por todo o Brasil.
Um fato histórico que marca até hoje nas lembranças do amigo Chico Lorena.

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