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Corinthianismo de entranhas.


A fidelidade da massa corinthiana compõe uma força que representa a coletividade sobre uma sociedade que tende a excluir o indivíduo, recortando-o a partir das diferenças sociais.
Uma nação que se prolifera continuamente com cada um procurando seus iguais já por 100 anos.

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Atílio tinha resolvido sair daquela vida de desencontros e vícios sempre a vencer.
Corinthiano doente, queria até mesmo se desvencilhar daquele fanatismo que culminava sempre num sofrimento. Um fanatismo visceral o qual o fez perder até uma namorada que dizia que “ele amava o Corínthians e torcia pra ela”. Incompatibilidade que era capaz de o proibir até mesmo de ouvir jogos no rádio de pilhas.
E decidiu então frequentar um desses templos que se iniciam em fundo de quintal com cadeiras de boteco e lonas de caminhoneiro. A frase “Jesus está aqui” escrita numa placa já meio enferrujada era o que importava.
As dificuldades eram grandes. Tanto dele em sair daquela vida bandida como também da igreja, que vivia com apreensão seus dias de promessas de salvação. Era preciso arrecadar fundos para que as portas imaginárias do templo não fechasse.
A solução foi encontrada por um pastor que resolveu mandar confeccionar centenas de pequenas chaves e vendê-las com a promessa de que “quem tivesse uma daquelas, entraria no reino dos céus”.
A procura foi razoável. E Atílio, na divina providência de querer mudar os rumos de seu destino e largar seus vícios, saiu de casa com alguns trocados que conseguiu guardar mesmo abstinente e foi à igreja comprar a sua chave.
O que ele não percebeu foi que tinha colocado sua carteira num bolso furado da sua calça jeans e pedalando sua velha Monark, não viu sua carteira cair pelo caminho escuro do bairro.
Chegando ao templo, Atílio pediu ao pastor duas chaves milagrosas.
Ao indagá-lo pela compra de duas chaves, o membro da igreja recebeu a seguinte resposta:
-Uma chave é pra mim, a outra é para o Ronaldo. Se o “fenômeno” conseguir ganhar a Libertadores este ano ele tem que ir pro céu...
Vasculhando cada bolso sem encontrar nada, Atílio entrou em desespero.
O pastor, meio desapontado, quis consola-lo. Ele, com toda pressa do mundo, tentava abrir o cadeado que prendia sua bike num poste de luz para poder voltar e tentar encontrar sua carteira pelo caminho percorrido até ali.
A campanha do seu time do coração naquela Libertadores teve o mesmo e triste final de sempre.
E para Atílio, nem mesmo a proposta de um paraíso foi capaz de mudar o rumo do seu destino nem de tirar de suas entranhas aquele corinthianísmo, aquela indevassável paixão...

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