“Bons de papo”.

Uma boa conversa muitas vezes é fundamental para se resolver uma situação.
Em Aparecida, desde que o comercio religioso se desenvolveu após o encontro da imagem da Santa no Rio Paraíba, todos que dependem disso para ganhar o sustento da família ficam conhecidos como os “reis da lábia”.
As transações no comercio da cidade têm numa boa conversa com o romeiro uma ação imprescindível para se concretizar a venda de qualquer mercadoria ou prestação de algum serviço. A disputa pelo “cliente” vai depender muito de quem for melhor na conversa, já que a concorrência é muito grande devido à numerosa quantidade de ambulantes e lojistas na cidade.
É fundamental ter objetividade e ser um tanto sucinto, pois o fluxo de pessoas é grande. A idéia é “laçar” o maior numero possível de freguês em espaços curtos de tempo.
Além do comercio estabelecido e do ambulante existem ainda os eternos “vendedores de fitinhas” e os “agenciadores” de restaurantes que, de uma forma peculiar e impressionante, acabam convencendo o romeiro a deixar seu suado dinheiro ali, ou adentrar determinado restaurante para comer. A conversa chega ao ponto de informar que “as fitinhas dão sorte porque foram ‘benzidas’ pelo Pe. Vítor”. É só amarrar no pulso e fazer três pedidos.
Ninguém tem ainda a noção exata do dinheiro que circula entre esses informais.
Noutra particularidade, devido aos riscos de se viajar para o Paraguai em busca de mercadorias, muitos “ressuscitaram as famosas “fabriquetas”de fundo de quintal. Com certo bom gosto, colando um espelhinho, um vidro colorido junto de uma estampa ou pequena réplica da imagem da Santa, criam uma mercadoria que circula por toda cidade. Uns usam ainda até garrafas plásticas de refrigerantes e acabam inventando uma curiosa lembrança para o romeiro levar. Algumas mercadorias vendem mesmo, não precisam de tanta propaganda.
Quando é tempo de quaresma, tem que ser esperto e ter uma boa conversa pra ganhar um extra na cidade. Nós, que sempre tivemos fama de bons de briga desde a época da emancipação, acabamos por necessidade desenvolvendo também essa fama de bons de papo. Por isso, o aparecidense de raiz, sempre consegue dar um jeito na situação com muito arrojo e criatividade, onde as fronteiras da boa conversa acabaram se estendendo para a informalidade do dia a dia, ultrapassando as necessidades do comércio.
Uma vez, um conhecido nosso lá da Santa Rita, sempre que atravessava a madrugada na “gandaia”, pela manhã, tinha o costume de adentrar o quintal dos vizinhos para “surrupiar” o pão e o leite, que naquela época eram entregues em casa, deixados aos pés da porta do freguês.
Numa dessas aventuras, com a barriga roncando de fome, nosso amigo pulou o portão de uma casa da Travessa Carlos Wendling e foi logo pegando o pão e o leite do chão. No mesmo instante em que ele se levantou, o dono da casa abriu de repente a porta e deu de cara com o “ladrão” que levou o maior susto, mas que instantaneamente disse:
-Olha o pão, olha o leite! Acabou de chegar, tá fresquinho! Bom dia!
O espertinho entregou a mercadoria pro dono sem nem olhar pra trás e deu no pé.
Povo bom de conversa é esse povo d’Aparecida do Norte “sô”...

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