Libertos pelo tempo.


É sabido, narrado e representado de várias formas a estória de que, quando aos pés do altar de Nossa Senhora Aparecida, nos idos de 1857, um escravo “fugido” de Curitiba veio para Bananal, onde recapturado, passando por aqui, implorou por clemente liberdade. Milagrosamente, tomado o negro de preces, vê suas correntes pesadas cairem por terra. Por tal milagre, o negro ganhou sua sonhada libberdade e seguiu prestando serviços na igreja.
Antes, em meados de 1750, esteve á serviço da capela um outro escravo de nome Boaventura, organista. Houve ainda outro negro de nome João Belin, que viveu por longos anos neste local. Diziam que este tocava a Ladainha de Nossa Senhora com “extrema beleza e perfeiçõ”. Escravos, negros livres, foram então organistas primeiros de Nossa Senhora.
Das vindas da ilustre Princesa Isabel à Aparecida sabe-se de mais escravos envolvidos em episódios inesquecíveis. Contava-se que, em sua primeira visita a esta terra, após orar na igreja, a Princesa foi saudada na praça por um escravo de nome Antonio que também prestava serviços na igreja e tocava perfeitamente trombone de vara. O negro na oportunidade graduou com extrema desenvoltura e perfeita ordem cânticos e hinos da época que o Conde D’Eu o abraçou fortemente e a Princesa deu-lhe um lenço que no canto trazia bordada uma coroa dourada. A história diz ainda que em outra de suas vindas a Princesa libertou por suas mãos um escravo na antiga Rua da Calçada.
Mas talvez o fato mais interessante que pouca gente sabe e que se faz a maior devoção para com a Princesa foi que, quando de sua morte, Aparecida enviou um ex-escravo para o transladar dos restos mortais da Princesa no Rio de Janeiro em 1953. por cooperação de toda sociedadae aparecidense foi que Manuel Valério Francisco esteve no Rio.
“Nêgo Valério”, cantado num enredo de Otávio Piza que o designava “querido do povo” e “osso duro de roer” foi nosso negro mais ilustre e morreu com 115 anos na Rua da Biquinha.
Consta ainda nos anais da história que um ex-escravo conhecido por “Simão Miné”, depois de alforriado, conseguiu comprar as terras que hoje formam o Bairro de Santa Rita. Simão Miné acabou homenageado dando nome a uma escola de samba em Aparecida nos anos 70.
E ao longo do tempo muita coisa mudou. Veio a abolição, mas continuaram os preconceitos. Muitos negros aqui chegaram e daqui partiram. E mesmo nas minhas mais distantes reminis-cências, a memória consegue lembrar o surdão marcando o ritmo pelas mãos do Zé Peté, na Ponte Alta. O pandeiro do Sete Dêdo, Pelé Bocão ainda zanzando por aí, as aulas de violão do sêo Jorgino, Seu Dito Barbeiro, pai do amigo Niquinho. O vigia Jota Jota. A inesquecível Tia Binda, O Vardomiro sentado na porta do “Ganha Pouco”. Os craques Tinão, Zé Milto e Ataliba. O Adauto vigiando as noites de festas lá no Sindicato. A inteligência e a memória poética do Luizão Freitas. O fotógrafo Taubaté, Tomézinho carteiro. Dito Maravilha e sua mãe Dona Mina. O Testa e a Nilza eternizando as noites de serestas. Seu Dito Freitas, nosso combatente imortal. O tiro passando de raspão no Limpinho, lá no Bar do João Donaldo. Seu Afonso Freitas respirando poesia da janela. Dona Glória, minha professora mais bela. Getúlio que não viu o peixe campeão e o Brinjela, que comeu macarrão com pato no seu próprio velório.
Riquezas que muitas vezes passam em branco pela vida são elos de uma história que os olhos não enxergam, mas que o coração sente. E eles, todos eles, estão libertos pelo tempo, presos apenas na profundidade do peito e pelo poder de uma memória...

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