Essa tal “independência”.


Nos meus áureos tempos na Escola Solon Pereira o “sete de setembro” caía sempre no dia 7 de setembro. A gente ficava algumas semanas ensaiando na quadra da nossa escola pra fazer bonito na Avenida Monumental onde o desfile do Dia da Independência acontecia.
Nossa escola era modesta. Havia poucos e velhos instrumentos que na semana da pátria o saudoso Seu Machado ia dando um lustre com “Kaol” pra ficar mais bonito. Deles, a turma se desdobrava, e tirava um som que compunha o ritmo cadenciado da nossa marcha. Num contexto e mais ainda pela emoção patriota do instante, tudo até que ficava harmonioso. Mas era bem diferente de outras escolas que tinham fanfarras uniformizadas e brilhantes, tocando instrumentos luzentes por si só e que faziam o coração disparar a cada batida compassada.
A mais marcante foi sem duvida alguma a Banda Marcial do Colégio La Salle. Não tinha quem não se arrepiasse quando ela passava impoluta pelas ruas da cidade com seu uniforme vermelho, azul e branco. Todo garoto da minha época quis fazer parte daquele sonho que foi a Banda Marcial do La Salle.
A nossa escola, esteticamente, tinha uniformes distintos e bem simples. E era assim que a gente ia pra Monumental. Uns usavam camiseta branca com a sigla PSP e calça Jeans. Outros, pela situação financeira de seus pais, iam de guarda-pó mesmo. Mas até essa irrelevante diferença era corrigida com a disciplina dos posicionamentos.
Era nos detalhes que se via a nossa diferença. Alguma coisa que faltava, com muita vontade, a gente buscava na perfeição dos passos, alinhamentos e distância. A nossa vaidade era apenas estar participando daquele dia importante.
Nessa época havia na minha escola um diretor muito disciplinador. O Senhor Roberto mais parecia um general tamanha a altivez e autoridade que ele passava para os alunos. Lembrando bem hoje, ele me botava mais medo e respeito do que meu próprio pai. Eram outros tempos.
Num desses feriados de 7 de setembro o dia amanheceu chuvoso. Mesmo com o tempo ruim tive que acordar cedo, colocar meu uniforme e ir para a escola onde ás oito horas da manhã sairíamos em marcha para a Avenida Monumental.
Ansiosos pelo fim da chuva ficamos aguardando no pátio pela hora do desfile. Foi exatamente nesse momento em que o “Seu” Roberto saiu da sua sala cercado de alguns secretários e professores e subiu num patamar mais alto do lugar para dizer o que ninguém esperava. O barulho que era intenso calou-se. Era sempre assim com ele.
O silêncio foi ensurdecedor. Sua presença bastava para isso acontecer.
Logo após um bom dia ele nos falou com voz pausada e firme:
-Por causa da chuva dessa manhã infelizmente o desfile da nossa escola está sendo cancelado. Vocês estão dispensados. Só peço a gentileza que o representante de cada classe recolha as cadernetas de presença de cada colega e entregue-as na secretaria. Bom dia a todos. Bom feriado de independência.
Aquilo caiu sobre nós como uma bomba. Não poderia ser verdade.
O silêncio durou alguns segundos quando não sei quem no meio dos alunos gritou:
-E os dias de ensaio, como ficam?
Os ensaios durante a semana contavam pontos positivos e ás vezes eram realizados depois do horário das aulas, por isso talvez a certa revolta do colega. Mas não era só isso. Aquelas semanas de ensaio foram de extrema superação e entrega. Queríamos levar o nome da escola pra avenida e mostrar a nossa gana apesar da simplicidade. A última coisa que queríamos era não desfilar por conta de uma simples garoa.
Alguns alunos já tinham saído dali. Mas um grupo não se conformou com a ordem dada pelo diretor. Foi então que num consenso começamos a gritar já do lado de fora da escola:
-Queremos desfilar! Queremos desfilar!
Os que já estavam distantes vieram correndo e o coro ficou ainda mais intenso. Nessa hora a chuva já tinha cessado e todos os alunos estavam parados em frente à escola gritando sem parar. Em poucos minutos, o semblante sério e impetuoso do diretor começou a tomar uma outra forma. Alguns secretários ao seu redor lhe falavam alguma coisa ao pé do ouvido. Foi então que ele desceu a escadaria da secretaria e veio em nossa direção. Diante de nosso silêncio que se formou de repente com sua presença ele disse em voz alta:
-Todos em forma!
Lembro com toda exatidão de cada rosto. Foi um momento histórico. Em poucos minutos a nossa humilde fanfarra ditava o ritmo da nossa marcha. Entre os eucaliptos fincados no Morro do Cruzeiro vi o sol esboçar raios de luzes. O dia aos poucos foi ficando magnífico.
Fomos pra avenida e fizemos o nosso melhor. Mesmo ofuscados pelo brilho de fanfarras consagradas como as do Pires do Rio, Chagas Pereira e Escola MAE, fomos ovacionados.
Depois do feriado, voltando ás aulas, ainda foi possível conferir uma nota do nosso diretor no mural nos parabenizando pelo feito memorável daquele dia 7 de setembro.
Hoje essa data foi ficando descaracterizada devido a obstruções mercantilistas na Avenida Monumental. O sentido patriota de antes foi perdendo seu verdadeiro valor devido a ausência de motivos que nos levem a comemorar realmente a tal independência desse gigante adormecido chamado Brasil...

Comentários

Concordo com você. Também tocava em uma fanfarra aqui em Caçapava, e a preocupação que nos rondava era: e se chovesse no dia????, seria frustrante e foi por algumas vezes.Também admirava a Fanfarra La Salles de Aparecida, tanto que minha paixão for Bandas E Fanfarras me faz até hoje,nos dias de folga acompanhar campeonatos aqui no estado de São Paulo.Abraços