“Sêo dotô”.


O centro de Aparecida, além de muito movimentado, sempre agrega pessoas que, devido a presença de várias agências bancárias, tem um estilo mais tradicional. Muita gente de terno e gravata, alinhados pela importância que aparentam ter.
Certa vez, um desses homens de negócios, na sua falta de tempo para o almoço, resolveu parar ali mesmo na praça pra fazer um lanche no Bar do seu Carlos Português, ao lado do Cine Ópera. Como todo bar por ali no horário de almoço, o balcão era sempre disputado pelos cotovelos famintos e pelas pastas de couro, cujo conteúdo talvez trouxesse papéis importantes, assim como os alinhados “doutores”.
Entre um salgado e outro, um desses cidadãos, na correria do relógio, se viu em disputa por um lugar no balcão com o conhecido Zé Caroço, que vivia pelas redondezas atrás de uma cachaça que pudesse ser paga pela gentileza dos transeuntes apressados do centro.
Mas o Zé Caroço não era aquele bêbado inconviniente. Se tinha moeda bem. Se não tinha, não ficava muito tempo por ali atrapalhando a freguesia do bar. Jogava goela abaixo sua pinga e ia embora.
Pela aparência, o executivo conseguiu então seu lugar no balcão. Mas o amigo Zé não se conteve e já meio “calibrado” disse ao engravatado:
“Vai de vagar aí amigo, não precisa empurrar”...
Meio afoito pela falta de tempo e um tanto nervoso talvez pelo fato de algum negócio não ter dado certo, o executivo respondeu grosseiramente pro Zé:
“Sai fora pingaiada. Você sabe com quem está falando?”
Humildemente o Zé Caroço respondeu:
“Sei não ‘sêo dotô’. Mas eu sou o Zé Caroço, muito prazer”... e esticou sua mão suja que segurava algumas moedas para cumprimentar o moço.
O bafo de pinga espantou o engravatado do boteco que deixou uma nota de Cruzado em cima da vitrine de salagadinhos sem esperar o troco.
O resto da coxinha deixado num pratinho em cima do balcão foi o tira gosto da cachaça que o Zé Caroço ainda tomou tranquilamente com o troco que o homem de negócios não quis...

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