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O medo que passou.


Desde muito tempo, morar na rua vizinha ao cemitério velho de Santa Rita, sempre foi pra gente ter que criar forças inexistentes para enfrentar todo lado assombrado do lugar que dava vazão às história criadas e contadas pelos mais antigos.
Todas essas lendas rondavam nossa infância e com certa inconsciência, fazia com que a gente também “evocasse” a fantasia e o real de tudo que ouvia. Naquele tempo, não era fácil ser criança.
Quando a gente ia até a casa de minha avó lá no alto da Rua Pe. Gebardo, minha mãe sempre alertava contando sobre o “corpo seco” que vivia na mata em frente.
Contam que na metade do caminho que leva ao Potim existia o “Caaparapá”. Mata cerrada com sombrios corredores cobertos pela ramaria. A lenda conta que o “Caaparapá” era um lugar assombrado pelo “corpo seco” que quando via alguém que ia atravessar o rio, se ajeitava feito sombra na ponte velha de madeira do Potim.
Em noites escuras e sem lua, a gente sempre surrupiava um mamão verde do quintal do Seu Dudu, tirava todo o miolo da fruta, fazia dois olhos sinistros e uma boca onde palinhos de dente formavam a dentição mórbida d e uma caveira. Colocávamos um toco de vela aceso dentro e deixava em cima do muro do cemitério pra assustar as pessoas. Era sempre o mais corajoso que escalava o muro.
Também nessa época, era horripilante encontrar com o famoso Zé do Pito subindo a rua, pois, por ser rezador por excelência de defuntos, parecia que as almas o acompanhavam. Depois que ele morreu atropelado na Dutra, a gente passou a evitar brincar naquelas emediações com medo que ele nos assombrasse.
Mas ali atrás do cemitério era onde toda estória assombrada parecia se consumar. Vez ou outra, um redemoinho de vento levantava o maior poeirão acabando com as brincadeiras. Diziam que era o saci que estava por ali.
Em certas manhãs a gente muitas vezes encontrava um líquido amarelado pelo matagal que os adultos falavam que era o “côcô” do saci. Nunca mais vi algo parecido com aquilo. Além de dar nó nas crinas e rabos dos cavalos e fazer barulho a noite toda, o saci ainda “emporcalhava” nosso lugar preferido para brincar. Mas nunca ninguém conseguia ver o danado. Isso, em tese infantil , começava a mostrar que o danado do saci não existia nada.
Meu avô dizia que o Saci fumava um cachimbo que fazia muita fumaça que era pra ele fazer reinação sem ser visto. Dizia que ele pulava o quintal das casas de noitinha pra fazer arte e não gostava de fogueira.
Amanheci numa manhã pensando no “danado” quando o vento soprava as roupas do varal. Reparei que entre as roupas presas pelo pragador havia um só pé de um par de meias do meu pai. Senti medo e achei que o danado do saci tinha vindo pela madrugada e surrupiado uma meia dele. E eu que imaginei ser um gato fazendo barulho no telhado naquela noite.
Me perdi em pensamentos inocentes tentando encontrar uma maneira de prender o pestinha.
Da janela do meu quarto não dava pra ver e eu nem imaginava que o outro pé do par de meias havia se despregado e levado pelo vento durante a noite. A meia tinha caído numa poça d’água no chão onde minha mãe havia lavado de novo, deixando-a esquecida no canto do tanque de roupas enquanto fazia o almoço...

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