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Negócio da China.


Há quem diga que ter comércio em Aparecida é ter uma mina de ouro. Mas é preciso trabalhar muito para que a eterna crise brasileira não venha castrar sonhos ou expectativas. Além do mais, muitas vezes é preciso que cada final de semana n’Aparecida do Norte venham se ajoelhar aos pés da Santa duzentas mil pessoas. Só assim parece que o papo mercantilista do domingo á tarde poderá ser mais tranqüilo, sem rodinhas na avenida “reclamando” desvairadamente do movimento. Ninguém vê que “é muita gente vendendo a mesma coisa em vários pontos na cidade”. Nem se o Lula tivesse dez dedos a coisa poderia melhorar. No início do ano o movimento não é lá essas coisas. Ainda mais quando o carnaval é logo no inicio de fevereiro, trazendo a temível quaresma.
Mas sempre tem algum comerciante que se dá bem. Com criatividade e novidades acabam indo embora a cada domingo com pelo menos algum para pagar as contas.
Às vezes quem sai perdendo mais são os donos de fábricas de quintal que fornecem as mercadorias para revenda. São gente sofrida e batalhadora que inúmeras vezes ficam a mercê de muitos comerciantes da cidade.
Há muitos anos atrás, quando as lojas ao redor da basílica nova eram muitas, foi instituído pelos padres o chamado “vale”. O vale era considerado uma verdadeira moeda de troca, tamanho o valor que tinha por ser de origem da igreja. Vale dos padres era dinheiro em caixa. Não tinha prejuízo quem pegava esse vale. Na medida em que o tempo foi passando a idéia foi sendo copiada por vários comerciantes da cidade. Isso acabou descaracterizando seu valor porque entre a maioria dos comerciantes que são honestos na cidade sempre há algum “espertalhão” no meio. Isso é comum numa sociedade capitalista.
O coitado do cidadão ia à segunda feira receber seu vale e “quando” encontrava o dono do estabelecimento, o mesmo, ao invés de lhe pagar tudo e liquidar a conta, renovava o vale. Funcionava mais ou menos assim:
-Amigo, este final de semana foi ruim. Eu estou te devendo cem peças, certo? Vou te pagar cinqüenta peças e me manda mais duzentas peças sexta feira, certo?
O domingo foi ruim e mesmo assim, lá estava o “carro zero” parado na porta do lugar enquanto o fornecedor das peças vinha numa bicicleta caindo aos pedaços. Ali ele ficava refém do comerciante. Vale lembrar que as cinqüenta peças eram pagas em “vales” e algum trocado em dinheiro. Na busca por sanar suas dívidas semanais o pequeno fabricante de peças era obrigado a aceitar a negociação e não chiar muito.
Na semana seguinte o papo era sempre o mesmo. Isso acabou com vale que tanto valia.
Em Aparecida sempre teve gente esperta aplicando golpes de tudo quanto era jeito. Um cidadão certa vez, iludido pela história de que Aparecida era uma mina de ouro, comprou um bar num lugar pouco estratégico na cidade e ali ficou. O cara investiu certa grana e achava que com três meses depois pudesse recuperar tudo tamanha fama milagrosa do lugar. Eis que os meses se passaram e nada. Desiludido, resolveu então vender o bar, pois o prejuízo estava demais. Viajando para São Paulo o amigo acabou encontrando um “louco” para comprar aquele “elefante branco”. Meio desconfiado o comprador perguntou: - Mas o ponto é bom mesmo?
Respondia o outro: - Dá movimento durante a semana toda. É uma mina de ouro que eu preciso com muita dor no coração vender para quitar uma dívida grande que tenho.
-Terça feira então eu vou na “paricida” ver.
Viajou as pressas e, aqui chegando, convidou uns vinte amigos e resolveu dar várias caixas de cerveja pra turma beber de graça. Isso, não antes de combinar tudo com a turma que cada um teria que dizer que era de um determinado lugar, falando que eram fregueses de longa data do bar. Um movimento forjado.
Na terça, quando o coitado do comprador chegou e viu aquela festa e aquela gentarada no bar pensou: - É uma mina de ouro mesmo. Estou rico...
Fizeram o negócio e o cidadão pagou tudo no dinheiro vivo. À vista. Nunca mais ele viu o vendedor do bar e nunca mais se viu tanta gente bebendo por lá. A crise foi transferida com sucesso e o novo dono acabou tendo que vender o bar mais barato, levando um prejuízo enorme.
O local, depois de muito e muito tempo fechado, acabou virando igreja de crente.
Foi assim que o ponto começou a ficar lotado de verdade...

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