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Nunca mais outra vez.


A primeira e única vez em que retirei meus pés do chão pra voar num avião “teco-teco” na minha vida, quase morri.
Era dia 25 de dezembro de 99. Foi uma experiência que não quero ter nunca mais.
Fomos eu e uma ex-namorada junto de um tio dela que era piloto e que havia vindo passar o natal com a família que aqui morava. Ele veio de sua cidade até Guaratinguetá pilotando seu bimotor adquirido algumas semanas antes. Zero bala.
Da pista da Aeronáutica em Guaratinguetá sobrevoando até à Basílica Nova foi um “tirinho”. Muito rápido mesmo. Morro do Cruzeiro, Magic Park, Basílica velha, Potim. Tudo visto do alto. Pena naquele dia não ter levado uma máquina fotográfica pra registrar a “viagem”.
Mas esse passeio aconteceu de repente. O vôo também. Eu nem queria voar temendo algo errado.
Fone no ouvido. Conversas feitas pelo microfone que ia a frente da boca. Tudo andando tranqüilo até o exato momento em que o piloto me disse:
-Rapaz, sabia que o avião não cai? A gente é que derruba ele. Veja só...
Foi ali que ele desligou o motor do avião que começou a planar tranquilo, sobrevoando naquele momento aqueles lados ali do João Daló, fazenda onde nasceu Rodrigues Alves.
Fiquei sem voz. Estático. Meu corpo suava frio. Camisa encharcada recostada no assento. Ele explicava coisas técnicas que minha atenção ignorava. Eu não sabia se rezava ou se fechava os olhos. Pensava comigo: e se der um pé de vento e essa porcaria virar pra trás?
Em poucas palavras consegui dizer ao “tio” piloto:
-Amigo, dá pra ligar o motor agora. Já entendi tudo. Dá até pra pilotar se você quiser...
Só mesmo uma piada pra tentar descontrair.
E lá vai o piloto ligar novamente o motor do teco-teco...
Num breve alívio, ele começou a me mostrar e explicar sobre as curvas que o avião faz. No painel de controle existe uma espécie de velocímetro cujo ponteiro é um pequeno avião. Suas asas vão de um lado para o outro, conforme o lado em que o avião vira. Dão as coordenadas exatas para seguir a direção correta. E nessa aula de “curva vai e curva vem”, senti meu estômago embrulhar.
De repente, comecei a sentir enjôo. Meio de ressaca ainda pelas festas de natal, comecei a lembrar de tudo que havia comido na noite anterior: Leitoa, maionese, arroz, farofa. Essas coisas todas. Fora a cervejada e os vinhos “San Tomé” da vida.
Ainda explicando alguma coisa no painel de controle, eu lhe interrompi dizendo:
-Será que dá pra voltar agora tio? Não estou me sentindo muito bem...
Achando graça da minha situação ele um tanto piadista falou:
-É, você está meio amarelo mesmo. É só um instante e já estaremos em terra firme.
E foi mesmo. Logo a torre de controle já dava as coordenadas e permissão pra aterrissar.
Antes de tocar ao chão ele contou que na aterrissagem era importante ter braço firme e muita técnica pra não dar nada errado e causar algum acidente. Nessa hora lhe perguntei se tinha que rezar ou torcer pra dar tudo certo. Ele respondeu querendo por medo:
-Nessas horas é sempre bom rezar. Toda ajuda é bem vinda.
Foi tudo tranquilo. Graças a Deus meu anjo da guarda trabalha em feriado.
Meio envergonhado, mas sem ter outra coisa a fazer, corri para uma moita ao lado da pista e recordei o cardápio da noite anterior enquanto o piloto levava o avião para a “garagem” rindo da cena. Antes de seguir ele disse ainda:
-Ainda bem que não foi aqui dentro. Se não eu te jogava lá de cima...
Lavei o rosto com a água de uma mangueira improvisada perto da pista de pouso pensando numa coca-cola bem gelada pra tirar aquele gosto ruim da boca.
Quase dei uma de Papa e quase dei um beijo no chão comemorando minha volta em terra firme. Minha querida terra de onde eu não devia ter saído.
Depois disso nunca mais me arrisquei a entrar de novo num avião. Uma que eu nem tenho grana pra isso. Outra que a crise é seria demais pra me tirar do chão. Foi uma vez e nunca mais.

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