O sorriso da marmita


Papai tossiu dando aviso de que estava ali.
Vinha como de costume examinar as janelas, uma a uma.
Chovia muito naquela noite, mas estava tudo no seu devido lugar, o que dava certa tranqüilidade na casa, apesar dos relâmpagos e dos trovões que iluminavam assustado-ramente o velho cemitério em frente.
Mamãe com sua inabalável fé já havia acendido uma vela benta para afastar chuva feia do céu.
Já em minha cama, eu fugia atrás de sonhos impossíveis de criança. Sonhos que o desenhar de um novo dia talvez fosse capaz de realizar.
O ranger da porta do quarto misturou-se com a voz de papai perguntando:
- Tudo bem aí?
E ele era assim, dificilmente saía do quarto sem contar algo, falar alguma coisa, lembrar uma estória, um alguém. Havia muitas estórias que saía dele que pareciam ter algo épico e que geralmente narrava o cotidiano da Praça Nossa Senhora Aparecida e dos fotógrafos “Lambe-lambe” que trabalhavam com ele por lá.
Papai tornou-se fotógrafo de verdade mesmo bem depois. Antes ele coloria as fotografias tiradas pelos outros usando a química de uma batata para fixar a tinta. Como naquela época não havia fotografia colorida, ele ganhou muita grana com esse oficio artesanal, que exigia dele enorme visão e paciência.
Dizia tudo com o mesmo encantamento com que se debruço sobre sua vida, numa epopéia única e original, típica de um verdadeiro Homero, sem tirar nem por.
Nessa noite ele me contou que, numa certa manhã, um tal de “Bastião Galinheiro” passou vendendo frango caipira na praça e um retratista comentou:
-Joaquim, faz tempo que eu não como frango caipira. Acho que vou comprar um e mandar para minha “muié” fazer no almoço pra mim.
Um outro deles indagou:
-Cuidado, de repente é galinha da angola e não vai cozinhar nem por reza “braba”.
Papai disse:
-Tem nada não! É só colocar um prego bem grande pra cozinhar junto. Quando o prego amolecer o frango “tá” bom.
Foi só risada. Mesmo assim o sujeito arriscou e comprou a galinha.
Parece que naquele dia o “Bastião Galinheiro” não teve troco para voltar e o frango então acabou ficando fiado para ser pago no domingo.
O retratista então pediu ao moleque que lavava chapas que levasse a mistura para sua esposa aprontá-lo pro almoço. No mesmo instante, um outro retratista que tinha escutado toda a conversa decidiu não almoçar em casa e ficou por lá esperando pra “tapiá” o companheiro que, alheio a tudo, continuou mesmo é jogando baralho com o resto da turma no meio da praça, esperando ansioso pelo banquete especial daquele dia. Deu enfim a hora do almoço. Os sinos da igreja velha badalavam anunciando o meio do dia. Cada qual com sua fome seguiu seu rumo. Naquele dia meu pai disse que havia “serrado um rango” lá no Hotel Vitória, cujo dono era seu compadre e amigo de longa data. Foi nesse hotel também o local onde meu pai, algum tempo depois, montou um Cine Foto e viraria patrão pela única vez na vida.
“Dias Reportagens, batizados, casamentos e fotografias em geral”. É o que diz o único cartão que eu consegui guardar até hoje.
Na ladeira monte Carmelo, subindo, distraído com os brinquedos dependurados nas portas das lojas, vinha então o menino trazendo a marmita amarrada com um pano de prato bonito, todo florido, preparada com todo o carinho pela esposa do fotógrafo.
A marmita foi entregue então ao dono e, com todo o cuidado, foi colocada embaixo do banco da praça, junto com as “tráias” usadas para revelar retratos. Fixador, revelador, essas coisas todas.
Depois, o dono da marmita foi até ao Hotel Recreio jogar um resto de conversa fiada fora e tomar “umazinha” para poder abrir o apetite.
Foi exatamente esse o momento em que o “amigo da onça” se dirigiu até o banco, pegou a marmita e, sem que o dono enxergasse, abriu e tirou todo o frango caipira que a essas alturas já cheirava que era uma beleza, deixando somente o arroz e o feijão.
E mesmo não se contentando com tanta maldade, tirou a dentadura da boca, colocou na marmita e cobriu direitinho com o restante da comida.
Chegou a hora do rango! O retratista já todo salivando foi direto pegar sua marmita.
Acomodou-se debaixo da sombra de uma árvore e foi logo desenrolando a quentinha.
Quando ele abre a surpresa:
-Ué, cadê o frango? Será que a “muié” não fez? Talvez não tenha dado tempo, pensou decepcionado. Deixa pra lá...
Mas, no que ele enfia a colher, acerta alguma coisa dura no fundo da marmita e diz:
-Ah, minha “muié” quis fazer surpresa pra mim...
No que ele tira, vem aquela dentadura amarelada cheia de arroz! O camarada levou o maior susto e começou a xingar pra mais de metro, querendo matar o filho da mãe que havia feito aquilo com ele. Bufando de raiva ele vê o “amigo da onça” rindo do outro lado da praça com uma coxa do frango na mão. Estava feita a coisa...
Papai disse que ele ficou o resto do dia querendo “furar” o outro com uma tesoura usada pra cortar filme. Ele também quis quebrar a máquina que o outro usava para fotografar, mas os demais não deixaram.
Foi o maior rolo da paróquia. Não fosse a turma do deixa disso poderia até ter acontecido uma tragédia naquele dia.
Alguns policiais que circulavam pela praça ficaram atentos, mas não foi preciso intervenção desta parte. O sacana sumiu de lá por uns três dias. Voltou depois com a boca murcha, ganhando o titulo de fotógrafo mais feio da Praça Nossa Senhora Aparecida e com a missão de ter que tirar muita fotografia para poder pagar uma dentadura nova.
Alheio a tudo isso, lá vai no domingo o “Bastião Galinheiro” receber o seu dinheiro.
O fotógrafo enganado, ainda com muita raiva, quase não quis pagar. Mas tudo acabou dando certo, visto que o “Bastião” não tinha nada a ver com o peixe, ou melhor, com o frango perdido. Ninguém até hoje ficou sabendo onde foi parar a bendita dentadura.
Nossa, como agente riu!
Até mesmo mamãe acendeu as luzes para saber o que estava acontecendo.
Naquele instante meus sonhos já haviam se desprendido de mim. Havia somente um em minha mente de menino, ser um dia da mesma forma que papai era. Ter sua habilidade, inteligência e principalmente sua eterna paciência. Era um conjunto inigualável de coisas que faziam querer sorver ainda mais de sua pessoa, diante do qual, eu me sentia um mero aprendiz. Tudo isso é que torna um grande homem inesquecível. Sua vida exemplos, suas estórias e sua honra inabalável, numa espécie de energia, acabam nos acompanhando pelo resto da vida, fixando-se na memória. E no caso de papai, somavam-se ainda um eterno e sereno par de olhos azuis, o que acaba intensificando tal coisa em mim.
-Preciso acordar cedo amanhã, boa noite.
Boa noite papai, até um dia.


Conto vencedor do XVI Concurso de Contos da Biblioteca de Aparecida no ano de 2005

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