A travessia Alvinegra.


Eu estava lá.
Fui ao Pacaembu em novembro de 2007 assistir a Corinthians e Vasco da Gama no jogo em que o “time do povo” perdeu a chance de escapar da série B do Brasileirão. Era só ganhar por misero “um a zero”. Mas não houve jeito. Foi o inverso, e o time decepcionou um Pacaembu lotado, com mais de 35 mil corinthianos que se esgoelaram nas arquibancadas durante 90 minutos. E eu era um deles.
Lá na capital eu percebi realmente que São Jorge não joga bola. O negócio de São Jorge é matar dragão. E nem o time joga mais aquele futebol de raça e de amor à camisa como antigamente. Quem decide não é santo ou Oxalá. Nem Cristo ou Orixá. Quem decide é o acaso da bola na rede aproveitado com competência e treinamento.
Também vi por lá que a PM não dá moleza. Ela “deita a borracha” sem dó. Foi assim quando a gente já estava nas imediações do estádio. Eu mesmo tive que dar umas boas corridas da policia pra não levar as minhas.
Antes do fim da partida, quando percebi a “viola em cacos”, fui saindo do estádio pra fugir da confusão que se esboçava. Lá fora, uns 30 desocupados estavam agitando e querendo arrumar confusão, gritando palavrão pra quem estava saindo. Num momento da confusão o grupo ameaçou vir em nossa direção atirando pedras. Do lado oposto, a PM montada também vinha para reprimir a ação dos vândalos. Esse pobre colunista só fez correr. Fazia uns vinte anos que eu não corria daquele jeito.
E vida de Corinthiano é assim mesmo. Corinthiano nasceu pra sofrer, é destino. Ele sai de Aparecida, já em cima da hora, paga um preço que não pode e leva três horas e meia pra chegar ao estádio. Quando chega, o jogo já está rolando. Perde o bom da festa. Tem que correr pro campo e correr da polícia pra não levar umas borrachadas. Vê o time ter uma atuação ridícula, perde o jogo, perde o ônibus e passa frio. Depois, com alguns reais que lhe restam, come um pão com carne numa barraquinha que o faz ficar com dor de barriga e diarréia o dia seguinte todo. É destino mesmo.
Se eu pudesse transferir com fidelidade para estas linhas tudo que se passou dentro do ônibus no retorno a Aparecida, resumiria com um cortante silêncio. De vez em quando alguém soltava uma pérola na escuridão querendo animar os que faziam suas contas da tabela dentro da cabeça. De repente, um cheiro forte entorpecia o ar como foi por todo trajeto da ida. Era só assim mesmo pra fazer esquecer. Era somente assim pra destruir o pesadelo da mente cansada. Mas os indícios da realidade eram superiores.
Logo surgia a basílica. Em casa finalmente. Aí vem na lembrança aquele amigo são-paulino que a gente nunca vê, mas que com certeza vai nos encontrar no dia seguinte. Aquelas “viúvas do Pelé” e “divorciadas do Robinho” que nos acham numa esquina improvável da cidade e ironicamente nos aconselham uma reza. Um “parmerênse que chega e diz: “Você é pé frio mesmo. Nunca vai ao estádio. Quando vai, seu time perde”. Tinham quase 35 mil pessoas por lá e eu sou o pé frio? Foi o momento em que pensei que a crise corinthiana seria “ a mais longa de toda a história da humanidade”.
Doze longos meses separaram aquele caos desse momento infinito de agora. Do pesadelo à apoteose, o Timão mostrou que vencedor é aquele que sabe se levantar diante das dificuldades.
O nosso lugar voltou solene. A velha fumaça entorpecida que habitou as mentes cansadas de antes foi a moldura da espera que alcançou a alegria e estufou o peito, sustentando na sua arquitetura um coração sofrido. O “time do povo” voltou forte, lavando a alma de quem acreditou e enfrentou humilhações. Que não precisou garimpar freqüências AM no radinho de pilhas, pois a poderosa Rede Globo soube valorizar a nação alvinegra transmitindo quase todos os jogos. Que correu das borrachadas de uma PM despreparada que não sabe lidar com essa manifestação sociológica chamada “Corinthians”. Que transformou o difícil em épico.
O que nos arrastou foi esse Corinthianismo que fervilha nas veias e que sustenta esperanças.
Os menos felizes pensaram que tudo ia despedaçar nossa magia e fazer nosso desânimo atingir o extremo. Mas não houve nem tempo. Doze meses depois o Timão ressurgiu das cinzas e está de volta.
Eu nunca vou te abandonar porque Corinthiano de verdade gosta mesmo é de sofrer.
E amar sem sofrer meu amigo, não vale.