Pular para o conteúdo principal

Facetas da memória.


Limpeza geral no quarto.
Entre baratas que correm se escondendo nas frestas do dia, jornais de um ano passado rumam direto para o lixo. Revistas já sem nenhum valor literário ou informativo, canetas sem tinta de palavras perdidas, relógios sem pilhas parados no meio do tempo. Discos arranhados sentindo saudades da velha vitrola de válvulas, fitas k7 enroladas no ontem de um auto-reverse, bijuterias sem brilho, comprimidos vencidos dessa dor que não passa. Um carretel de linha 10 que amarrava o chão ao azul do céu. Objetos que estavam ali, esquecidos no escuro da poeira.
Logo, cadernos. Muitas folhas de papel onde letras escritas eram supervisionadas pelos olhos curiosos que tentavam encontrar o que passou.
Calendários mofados mostrando aquilo que deveria ser e não foi. No verso, beldades já sem nenhum deslumbre, marcadas pelas digitais daquela adolescência. Papéis de balas, poemas de inspirações solitárias exaltando a sensibilidade coletiva. Beijos desbotados em papéis de carta amarelecidos. Pétalas emboloradas pela ausência de perfume. Amores vãos.
E o coração ficou ali, enchendo de vontades as gavetas.
Traças gulosas por rimas que não entendem. Espelho de quem as escreveu. Corroídos valores de moedas antigas ostentando efiges de generais mortos. Livros carunchados cheios de datas confusas. Rabiscos múltiplos tentando encontrar um caminho que pudesse levar à posteridade. Chaves que já não trancam nem soltam. Receitas velhas e prescritas de ânsias mal curadas, convites de festas que não fui. Chaveiros redesenhando a cortesia numa coleção esquecida, resultados da loteria que matou o sonho da fortuna, postêres daquele antigo e sempre campeão. Guardanapos traduzindo o instante de um bar. “Amigos sumindo assim pra nunca mais”.
No fundo de tudo, uma bíblia. Deus se guarda no fundo de tudo mesmo. Pincéis esperando pelas tintas de cores que ainda vão ser inventadas. Lápis de palavras inacabadas, apagadas pelo correr dos dias. santinhos de pessoas idas, orações acopladas na esperança de salvação. Negativos que rejuvenescem no positivo do agora. Asas de Içás que não fizeram o menino voar. Recortes e recordações.
Caso imaginasse o final da história, teria colocado tudo dentro de uma garrafa e bebido de uma só vez. Só não me apartaria dos retratos. Era como se tivesse o poder de parar o tempo.
Nos espaços que sobram, vejo que a lembrança não se perdeu. O tempo é que nos ensina novas formas de esquecer e sem querer a gente aprende.
Dobro então o que presta e desprezo em silêncio o que já não tem mais valor. Se tiver tempo, ainda passo tudo a limpo na memória do micro.
Amarro resignado o saco de lixo para que alguns fantasmas não arrastem mais suas correntes por aqui.
Só preciso agora parar de espirrar por causa da poeira que despertou de um sono profundo e lembrar onde eu fui colocar meu bendito “pen drive”...

Em memória do meu amigo Edgar

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O chifre

Por conta de minha filha Larissa estar tendo febre há uns três dias, uma tia de minha esposa, em conversa por telefone, foi sucinta em seu comentário: “Essa menina está assustada ou aguada por alguma coisa”... De fato, em duas idas ao pronto socorro, os pediatras não conseguiram detectar nenhum problema mais grave. Não era garganta, ouvido ou algum dentinho nascendo, o que estava causando estranheza pela febre decorrente. Além de dar o “diagnóstico”, a tia foi logo dizendo o “antídoto” para a cura: chá de hortelã com raspas de chifre de carneiro. Vivi entre as crendices populares típicas de cidades do interior. Convivi com todos os meus avós e minha mãe, nos arautos dos seus 78 anos, ainda prega essa cultura popular de usar plantas e métodos pouco convencionais para curar algum mal. Assim sendo, mesmo cético para algumas coisas na vida, lá fui eu tentar encontrar o tal chifre... Não me aventurei em outro lugar sem antes passar pelo mercadão de Guaratinguetá. A minha intuição estava a…

A Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida

Segundo o relato daquelas humildes pessoas, foram tantos peixes logo conseguido, depois de “aparecida” a imagem, que a canoa ficou cheia. Até ameaçava afundar. Alegraram-se muito com o ocorrido e foram levar o pescado à Câmara Municipal de Santo Antonio de Guaratinguetá, mas primeiro passaram pela casa de Felipe Pedroso e deixaram a preciosa encomenda confiada aos cuidados de Silvana da Rocha, mãe de João, esposa de Domingos e irmã de Felipe. Puseram-na dentro de um baú, enrolada em panos, separada uma parte da outra.
A casa de Silvana foi o primeiro oratório que teve aquela imagem e ficou com ela cerca de nove anos, até 1726, data provável de seu falecimento. Assim tornou-se herdeiro da imagem seu irmão, Felipe Pedroso, o único sobrevivente da milagrosa pescaria.
Sua casa foi o segundo oratório, por seis anos, perto da Ponte do Ribeirão do Sá (proximidade da atual Estação Ferroviária) e também o terceiro, por mais sete anos, na Ponte Alta, para onde se mudara. Em 1739, Felipe Pedroso …

“Heart and Soul”, homenagem ao Nicolau Samahá.

Mesmo mais de trinta anos após sua morte, sempre ouvimos falar de que “Elvis não morreu”. Contudo, Elvis é ainda “o morto que mais vende discos em todo mundo” até hoje. O branco que tinha voz de negro. Elvis deixou este plano no dia 16 de agosto de 1977.
Quando criança, todo dia eu subia à Praça da Igreja Velha pra levar almoço pro meu irmão Roberto Dias que trabalhava no Foto JK. Subia distraído e ficava encantado com os brinquedos dependurados nas portas das muitas lojas que supriam o caminho que levava até à praça. Mas era uma loja em especial que me fazia chegar atrasado ao meu destino: a Loja do Nicolau Samahá. O dia inteiro o ele ficava tocando na vitrola as músicas inesquecíveis do Elvis Presley que me deixavam encantado. Fora isso, as paredes de sua loja eram forradas com pôsteres gigantes do Rei do Rock por todos os cantos. Ele também se fazia parecer muito com o ídolo: Alto, cabelos com topete e costeletas enormes. Camisas chamativas e de golas altas. Parecia o próprio Rei do…