Perdendo o freguês.


Todo final de semana de movimento, a disputa entre os fotógrafos da Praça Nossa Senhora Aparecida pela “romeirada” era intensa. E apesar de todo empenho dos “lambe-lambe”, diversas romarias que anualmente estavam na cidade viravam fregueses e sempre usavam fotografar com o mesmo profissional. Era uma espécie de gratidão pelo atendimento especial que recebiam toda vez que por aqui chegavam.
Não tiravam fotografia nenhuma enquanto o “retratista oficial” não aparecesse por lá.
Naquela época não existia ainda o velório municipal. Quando ocorria alguma morte era costume velar o morto na própria residência. Depois, o féretro se encaminhava até a igreja mais próxima onde se rezava uma missa de corpo presente. O defunto era então, geralmente, levado para o cemitério Santa Rita.
Certa vez, uma romaria vinda de Minas Gerais, chegou à praça procurando um fotógrafo que tinha ido almoçar em casa naquela ocasião. Eram fregueses de longa data e sempre que vinham pra cá jamais deixaram de usar os serviços dele.
Procurando pelo retratista sem o encontrar, o chefe da romaria foi perguntar para um outro sobre o paradeiro do colega:
-O senhor não ficou sabendo o que aconteceu? O nosso amigo partiu desta para uma outra.
-Não brinca não seu moço! Nóis vêm tudo ano aqui pra tirá retrato cum ele. Tem inté um fio meu que nasceu esse ano e é a primêra veis que nóis tráis ele aqui na Paricida do Norte.
Naquele dia, tinha falecido uma senhora muito idosa lá da Santa Rita que teve que ser enterrada as pressas. Foi realizada uma missa na Igreja Velha e o caixão estava saindo bem naquela hora:
-Olha lá senhor, o coitado já está indo para o cemitério. Deus o tenha na sua glória infinita...
-Jesuis amado moço, que situação triste...
-Ele era muito meu amigo. Antes de morrer ele me disse que vocês viriam esta semana. Eu faço questão de tirar quantos retratos vocês quiserem para ajudar a viúva nessa hora triste.
Depois de muitas chapas batidas e “uns par” de monóculos tirados, a romaria desceu a Monte Carmelo entristecida com o fato ocorrido.
Alheio a tudo, estava subindo o “falecido”. Ele reconheceu o chefe da romaria e foi ao seu encontro. O homem levou o maior susto, tamanha a surpresa em ver o “morto” subindo a rua. Depois de saber de toda a história, o retratista foi tirar satisfação com o colega que, nessas alturas, já estava num boteco contando a maior vantagem.
Quase saíram no braço. Mas depois da intervenção da turma do deixa disso, acabaram mesmo é tomando umas pingas juntos até escurecer o dia.
Hoje, esse folclore vai virando passado. A maioria dos romeiros agora traz suas próprias máquinas fotográficas e não têm mais aquela fidelidade com os retratistas.
O bom da história é que nenhum “Guardião da Santa” precisou mais “morrer” antes da hora para que outros pudessem eternizar as imagens dessa linda devoção à Padroeira do Brasil.

Conto premiado com o 3º lugar no Concurso de Contos da Biblioteca Municipal de Aparecida em 2008 com o título “Os fotógrafos de Aparecida”

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