O inexpugnável José.


O lançamento sai longo. O zagueiro parece que vai cortar e de repente tropeça e a bola sobra limpa para o atacante adversário. Agora é só lamentar e torcer.
O atacante chuta forte e num lance de puro reflexo e agilidade o camisa 1 faz um milagre. E aí que você se lembra que tem goleiro. Aliás, todo goleiro persegue este dia em que parece “sobre-humano”, inexpugnável, superior aos outros pobres mortais jogadores que se esmeram em pontarias, efeitos e força para tentar inutilmente vencê-lo.
Nos meus tempos juvenis na Escola Sólon Pereira, pude apreciar um desses “imortais” jogar. Toda turma o queria sempre jogando a favor, pois sua segurança embaixo das traves era sinal de vitória fácil. Para ele, o momento de conclusão da jogada equivalia a uma eternidade da qual a missão era ir sempre além. Para nós, o desafio durava os segundos de um chute.
Enquanto a história ia imortalizando as lendas de Iashin, Gilmar dos Santos Neves, Manga, Gordon Banks e outros goleiros, o privilégio maior era ver nosso “Zé Domingos” jogar. De estatura baixa, ele provava que o melhor momento do jogo nem sempre era o gol. Mero detalhe. Defesas difíceis, daquelas que causam ódio e admiração, tinham mais valor.
Eu, que nem sempre fui bom de bola, fiz meus “golzinhos” no Zé Domingos. Nem me lembro quantos foram. Mais marcou às vezes em que suas “acrobacias” debaixo das traves impediram o “artilheiro” de sorrir e mandar beijos pra torcida feminina que ficava por lá. Zé Domingos era um predestinado.
O grande goleiro uruguaio Mazurkiewicz ficou famoso mais pelo gol que não tomou do Pelé na copa de 70, quando levou um “drible” de corpo do rei que mandou a bola caprichosamente pra fora. Com o inglês Gordon Banks foi diferente. Apareceu para o mundo quando defendeu uma cabeçada a queima roupa do rei naquela mesma copa.
Diz a lenda que “onde goleiro pisa nem grama nasce” de tão azarado que é.
Por fim, Gilmar dos Santos Neves um dia definiu bem essa “profissão” de ser goleiro dizendo que sua carreira teve “22 nos de solidão”.
Mas o maior de todos foi o Zé Domingos. Ele não se definia por padrões comuns.
Um jogo que eu não esqueço foi quando o professor Cabrita decidiu jogar um pouco com a gente pra dar uma “suada” e desenferrujar um pouco as canelas. Craque que foi, deu um baile na turma com sua habilidade e jogadas de efeito.
O Zé Domingos, abusado que era, pediu pra jogar contra o professor só pra ver se ele era bom mesmo como diziam por aí.
Durante o jogo o Zé defendeu tanto chute do professor Cabrita que já estava deixando o mestre “nervoso”. Eu chutei umas quinhentas bolas que o danado do Zé ia lá e pegava. Era uma atrás da outra. O cara era de outro mundo. Mas, água mole em pedra dura...
Numa jogada de efeito, o professor Cabrita ajeitou a bola com a esquerda e “de letra”, com as pernas cruzadas mandou pro gol. A bola fez uma curva impressionante e entrou no ângulo. O Zé Domingos pulou, mas não teve jeito. A “muralha” estava em fim derrubada e de uma forma clássica.
À noite, na sala de aula, todo mundo só comentava do gol do professor Cabrita. O Zé não falava nada sabendo que nem mesmo suas defesas poderiam apagar o belo gol.
Ele só perdeu mesmo a linha quando eu cheguei dizendo que ele não teve culpa no gol e que a culpa tinha sido minha pelo passe de gênio que eu dei para o professor Cabrita guardar “de letra”, num mero detalhe...

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