Distância.


O poeta Lenine disse uma vez que “a distância não é mais que um cálculo”. E era assim que a gente subia a Rua Pe. Gebardo e seguia a estrada dos Motas rumo ao Bar do João Dalló.
O bar, rústico por excelência, ia de encontro ao sublime numa metáfora desvendada logo na chegada. Ali, a natureza impunha seu poder diante das mentes céticas que passavam a acreditar que a distância era realmente nada. Uma busca baseada na simplicidade e cortesia de um homem impoluto capaz de adivinhar pelo paladar. Paladar aguçado pelo poder magnético do balcão que induzía-nos a degustar aquela cerveja.
A poeira do tempo, sorridentemente levantada pelos carros que iam e vinham se confundia com o pó da estrada. Cavaleiros, em suas rédeas, marchavam pra lá ignorando qualquer entreposto, num ritual de estranho comando. O dia parecia parado...
Mas o seu João Dalló não parava um só minuto. Largava as suas panelas apenas pra cumprimentar quem chegava. Notório, com seu pano de pratos aos ombros, ia ajeitando seus óculos entre os olhos e parecia que conhecia um por um de longa data. Era a simpatia a senha que qualquer um carecia para se sentir em casa.
Quantas vezes a gente “amarrava um fogo” danado ali esquecidos do tempo...
O violão do Nivaldo ia aniquilando a tristeza enquanto o banquete não era servido. E as garrafas iam se empilhando como se empilham os sonhos. Sonhos não envelhecem.
A curtição maior era elogiar o tempero do seu João Dalló. Todo mundo dizia que “era coisa de outro mundo”. O auge disso era quando a panela que trazia o saboroso frango chegava. Com a colher de madeira a gente ia encontrando duas, três, cinco coxas do frango entre aquele caldo simplesmente maravilhoso. Ele vinha esfregando as mãos no pano de pratos e falava que não era só o tempero que era de outro mundo, o frango também. Era um “frango extraterrestre com mais de duas pernas”. Ele dizia e ria copiosamente disso.
Fartos, víamos que o limiar da tarde ia tecendo a hora de ir embora pela estrada que se desenhava ainda mais longa. Seu João Dalló desaparecia dali talvez não gostando muito de despedidas. A noite, o silêncio e o frio típico da mata do lugar iam chegando vagarosamente e recolhendo os passarinhos pra dentro dos seus cantos. Ele, depois de mais um dia de labuta, ia areando suas panelas e se confundindo com aquele brilho.
Buscando outro bar para beber a tradicional “saideira”, paramos certa vez no Bar do Firino, ao lado do Penidão. Um camarada que pegou carona com a gente, já travado pelas cervejas e pingas do sábado inteiro, contava ao balcão que antes da gente chegar lá no João Dalló, ele quase tinha sido atropelado por um cavalo doido que havia escapado de algum lugar por ali:
-“O pangaré parecia louco e veio bem na minha direção. Dei um pulo pra dentro da cerca e quebrei até a garrafa que estava cheia, me arranhando todo no arame farpado”...
Abrindo outra cerveja pra gente no balcão que também ostentava um pratinho cheio de torresmo frio e com a porta do bar já meio arriada, o Firino autorizadamente lambeta na conversa falou:
-“Também, com essa cara de égua, você queria o quê?”...
E a distância é isso mesmo, um cálculo, por vezes, muito difícil de se percorrer. Piora tudo isso o adeus de certas pessoas incondicionalmente inesquecíveis que habitavam, além de outros lugares mais, a eternidade do outro lado do balcão.

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