Amarga cerveja


Certa vez, assisti uma final da extinta Copa Mercosul entre Palmeiras e Vasco acompanhado por um dos mais fanáticos corinthianos que eu conheço: o Waldomiro Elache, que era o guardião do balcão do Bar do João Donaldo e responsável por servir a cerveja mais gelada da Santa Rita naquele período.

-“Hoje eu sou vascaíno desde criancinha”, bradou o Miro em voz alta antes de começar a partida. Nem poderia ser diferente.
Bola rolando! O tempo foi passando e o Palmeiras jogava por música. Com um toque de bola refinado foi fazendo um gol atrás do outro, deixando eu e o Miro com cara de bobo.
Ele não sabia se lavava copo, se olhava o jogo ou acendia outro cigarro, tamanha a tensão. O baixinho Romário não tinha colocado o pé na bola e ao final do primeiro tempo o verdão vencia por 3 a zero. Foi um baile dançado com uma mão na cintura da taça.
No intervalo do jogo, eis que chega ao bar o Ricardo Bernardes, filho do Zinho fotógrafo, com um sorriso largo no rosto, fazendo a maior farra e tirando a maior onda com a gente. Abusado, o parmerênse bateu forte no balcão e disse com ironia:
-Uma cerveja gelada pra comemorar o campeonato servida por corinthiano!
O Miro soltando fumaça como uma chaminé, fez uma cara de inquisição, mas teve que servir a gelada e agüentar a curtição sem falar nada.
As provocações vindas do "chiqueiro" seguiram até o recomeço do jogo...
A vitória certa do Palmeiras foi se transformando em frustração a partir do momento em que o “baixinho” Romário começou a jogar. Os sonoros 3 a zero, de uma forma impressionante, foi virando 3 a 1, 3 a 2, 3 a 3 e, finalmente, pra desespero dos “parmerênses”, 4 a 3 pro Vasco! O time carioca conseguiu uma virada impossível com três gols do “baixinho” que calou o Palestra Itália, levando a taça pra São Januário.
O sorriso mudou de rosto e o Ricardo, totalmente sem graça, saiu de fininho, arrependido por ter se levantado do sofá pra ir tirar onda do Miro que não sabia se lavava copo, acendia outro cigarro ou se dava gargalhada.
De dó, o Miro não quis nem cobrar a cerveja do Ricardo que ficou amarga e quente sobre o balcão...

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