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Óbito literário.


A última carta foi encontrada sobre a mesa que ainda exalava um cheiro amadeirado no espaço iluminado pelo resto azul da tarde. O papel, com letras escritas a lápis, dizia:

-“Estou cansado.
Cansado de disputar espaço com notícias vazias e compromissos capitais sem nenhum efeito literário, sem nenhuma força influente á sabedoria humana.
Cansei de garimpar tesouros que o tempo já esqueceu, de buscar atenção nos olhares perdidos quando transbordo sabedoria ingênua em papéis poluídos de realidade. De entender que a grandiosidade de muitos não será perpétua. Que eu não sou comprado barato. Que na verdade, nem tenho preço.
Não quero mais que me iluda tanto minha pobre e vasta poesia. Quero que a miséria, em muitos sentidos, continue sendo forte. Que a pré-censura me castre a escrita e que eu silencie diante desta ação inadmissível. Meu silêncio vai dizer muito e traduzir mais ainda essa “debandada” de metáforas.
Estou cansado de refazer caminhos para não me perder. Cansado de escrever o que não posso desenhar, de desenhar aquilo que não posso escrever e de resistir ao desencontro, para depois, continuar a assumir a ignorância histórica dessa desinformação que camufla.
Cansei dessa crença idiota em salvações e soluções. Meia dúzia de homens “superiores” não é capaz de salvar o mundo nem de desviar das mentes pensamentos de posse e da “síndrome do pequeno poder”.
Não quero mais me amparar no subterfúgio do verso e assim excluir o medo da derrota.
Não vou rasgar papéis que só semeiam a cizânia partidária entrelaçada ao interesse singular sem nenhum teor coletivo. Não vou mais galgar nenhum prêmio literário nem exaltar a pretensão de ser publicado em troca de algumas migalhas emboloradas de reconhecimento. Nem quero combater o capital injusto inserido em manchetes que esmaga a poesia social, visando apenas e exclusivamente o lucro exorbitante. Vou deixar que tome conta do espaço a anti-informação, a anti-poesia, a anti-ação literária da época e permitir que essa inútil rima siga agora o lado póstumo do meu tempo deixando memórias a se perderem. Monografias destinadas ao esquecimento do lugar.
Fôlego tivesse, teriam ainda que suportar-me por mais tempo, adiando-se sabe-se lá quando a tentativa de retornar ao instante natural de uma escrita livre e aberta.
Mas não vou mais combater essa miséria literária, a desesperança tida como um cardápio clássico das censuras. Essa utopia enganosa a qual os desinformados culturalmente se agarram e se rascunham como alternativa para maquiar suas letargias. Muitos dirão “já foi tarde”. Mas aqui, preso na certeza de que “palavras um dia podem florescer idéias”, vejo-me saindo dessa insignificante história, para entrar na ausência da vida, onde esse silêncio, compreendido ou não, será mais do que meu simples protesto”...

Não foi encontrado ninguém da família, somente crônicas e artigos órfãos esquecidos na memória de um já obsoleto computador que se reiniciava sem nenhuma senha.
O féretro descerá a Rua Santa Rita e adentrará ao cemiterio velho às quatro da tarde, onde o desencarnado recebrá o último adeus, ou o primeiro, depois de muito tempo, já que ninguém mais o via circulando pelas alamedas da cidade...

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