Em busca do sofrimento.



Muito antes da febre das TVs a cabo ou por assinatura e da Internet, onde é possível ouvir qualquer rádio existente no planeta, quem reinava soberano nos meus tempos onde o fanatismo pelo Corinthians ultrapassava alguns limites, era o famoso radinho de pilhas.
Eu tinha um da marca Phillips. Mas as rádios que transmitiam os jogos, principalmente à tarde eram quase impossíveis de se sintonizar. Á noite ainda dava pra ouvir um pouco mais, mesmo as ondas “indo e vindo” sem parar. Às vezes, a gente se sentava embaixo dos postes de luz da rua pensando que ali, devido ao magnetismo, poderia melhorar a sintonia, ou ficar na beira da Via Dutra pra ver se as “ondas” melhoravam. Era um folclore. Nunca se provou nada em relação a isso. Era também um pouco desgastante, mas provava a fidelidade em torcer.
Com o passar do tempo paramos com essa aventura sem retorno e começamos a “evoluir” nossa busca.
No domingo à tarde migrávamos para o Restaurante Leid’s, do seu Eduardo Elache, onde havia um rádio enorme que não me recordo a marca. Junto com “chumaços” de Bom-Bril na antena, o rádio parecia até sintonizar melhor e pegava a Rádio Record e Globo. Ás vezes se conseguia sintonizar a Jovem Pan.
Em 1988 a mesma Jovem Pan começou a entrar em cadeia com a Rádio Monumental de Aparecida. Isso fez nossa torcida abranger com mais nitidez certos clássicos daquele tempo.
Em meados da década de 90, a noticia da “TV por assinatura” se espalhou. A mais próxima exigia uma boa “peregrinação”, pois ficava lá no Bairro Itaguaçú no Posto Campestre. Mesmo assim, só era transmitido os clássicos. Jogos contra times “pequenos” tinham ainda que de ouvidos no rádio.
O Campestre mudou de dono e ficamos então órfãos daquela diversão.
Mas alguns “botecos” foram entrando na “febre” da TV por assinatura para oferecer certa comodidade aos fregueses. Com isso, as determinadas torcidas foram se separando em seus “clãs”, em seus bares conforme a preferência futebolística do dono do estabelecimento:
-No Bar do Ditão a “torcida que canta e vibra” do Palmeiras era predominante e dava as cartas. Com o tempo, o Skina Beer, na Ponte Alta, virou o reduto São-paulino na cidade. O Bar e Lanchonete Super, quase na Praça Velha, passou a ser a “Vila genérica” onde a torcida Santista festejou o fim da fila sem títulos.
Mas faltava ainda o “gueto” para abrigar a Fiel torcida. Um local amplo que pudesse acomodar a maior de todas.
Aí fomos perambulando de bar em bar e devido a fama de “maloqueiro”, alguns bares na cidade acabavam nos fechando as portas. Não literalmente. Mas quando a Fiel chegava sempre havia algum problema com o canal que iria transmitir o jogo. Por puro preconceito, não fomos conseguindo nos estabelecer.
Até que um dia o Corinthiano Horácio decidiu “abrigar” a sua torcida no Bar do Charlô. Ás vezes ele colocava telões e fechava a rua de “maloqueiros” pra fazer a festa.
Logo, depois de muito trabalho, conseguiu comprar uma televisão gigante com tela de 60 polegadas para exibir os jogos do Timão pra galera. Só que a diversão outra vez foi embargada devido a uma confusão ocorrida num jogo entre Corinthians e São Paulo onde um copo de vidro saiu “voando” e quase acertou em cheio a tela da enorme TV. Foi a gota d’água. Com toda razão o Horácio cortou o embalo da “curintianada” em assistir os jogos ali. Lá se foi a Fiel outra vez “mendigar” alguns jogos pelos bares da cidade...
Meu amigo Marquinho, filho do Careca, até que tentou formar um “reduto” alvinegro no seu bar lá no alto da Pe. Gebardo. Mas o bar era “meio” longe e como Corinthiano só anda a pé, ficou difícil.
O tempo foi passando pelo vão dos dedos. Alternaram-se derrotas e vitórias, dignas de se esquecer ou de padrão inesquecível. Até que um dia, das cinzas incompatíveis do descaso, surgiu um “templo” que se emergiu da luta subumana retratada em reluzente fidelidade.
Um bar com dimensões pequenas, mas incomensurável em acolhimento e sorte.
Um lugar de encontro marcado e sem a intolerância degradante de antes.
Um espaço entre os espaços com a cara da nação alvinegra e com ímpeto intransponível de emoção e coração. Uma recompensa infinita aos que migraram em baixo de sol e sob chuva atrás de uma paixão revestidos de resistência.
Um lugar onde a festa espera o momento certo pra acontecer. Que não dispõe de jogos importantes para iluminar o sofrimento, mas de cada jogo, numa total absorção do tempo que corre solto pelo acaso afora.
A Toca do Tatu exilou fora de nós pensamentos e presságios ruins. Apagou da retina da memória as humilhações de antes. Trouxe o livre torcer que busca o inefável sabor da vitória.
E de tanto fazer, de vez em quando, dá até saudade do meu velho radinho de pilhas Phillips “chiando” impoluto, preso no passado de buscas sofridas que se perderam pelo tempo...