Um doce e aquecido Natal



OS ENFEITES:

Natal era época de procurar um galho seco de árvore e gastar nele todo o pacote de algodão da gaveta. As bolinhas, luzentes e coloridas, eram geralmente compradas na Loja do Seu Arnaldo. Era simples e trabalhoso, mas ficava bonito.

A RELIGIÃO:

Meu Pai insistia em dizer que os presentes eram “dados pelo Papai do céu, não pelo Papai Noel”. Talvez seja por isso que desacredito naquele que voa em trenó e em toda mídia que se forma em torno dele e acredito muito mais no Papai do céu que na figura de menino fica esquecido na sua humilde manjedoura.

AS AUSÊNCIAS:

Meu avô já não estava mais por ali, arrastando seus chinelos pelo corredor. Minha avó já doía na lembrança e eu enfrentava a eternidade de um muro que me separava da solidão de ser eu.

AS GULOSEIMAS:

Na geladeira, os doces esperavam por nós. Pudim de pão amanhecido, arroz doce e manjar. Dava pra ver também algumas garrafas destinadas aos adultos. O forno do fogão estava sempre aquecido. Minha mãe passava o dia todo preparando aquelas delícias que meu Pai havia comprado no Armazém do Titica. Um dinheiro extra sanava sua conta na folha da caderneta. Seu nome vinha limpo para o ano novo.
os símbolos

OS SÍMBOLOS:

No caminho até a Basílica, vaga-lumes se confundiam com as luzes das sacadas e janelas. Em casa não tinha essas luzes todas pra economizar na conta da Light. Mas em casa não havia escuridão. A Missa do Galo demorava muito porque o Bispo falava bastante pra todo mundo. Era muita gente. De tanto bocejar, eu acabava dormindo encostado a meu Pai. Minha Mãe não largava o terço. Até hoje é assim.

OS PRESENTES:

Camiseta nova da Hering, sapato Alpargatas, calça Lee. Eu acordava de um sonho e ainda estava bonito.
Papai ia registrando tudo na velha máquina de retrato. Uma vitrola de válvulas tocava os discos de um tal “Carlos Galhardo” que cantava bonito. Mas a vitrola tinha que ser desligada toda hora, pois as válvulas esquentavam muito.
Que casa quente era a nossa. Dormíamos esperando os presentes do Papai do céu...
No dia seguinte, eu encontrava um “Volks” de plástico feito por um tal “Zé Badú”. As bonecas de minha irmã não sei de onde vinham. Acho que era o tal Zé Badú que fazia também. Foi assim também quando ganhei meu primeiro relógio de pulso. Mal sabia meu velho Pai que iria me prender pra sempre naquele tempo.


A CEIA:

A ceia prometia conversas e risos. Meu Pai repousava os olhos em minha Mãe e sempre pedia uma “bicota”. Nós contemplávamos o beijo e batíamos palmas. Eles estavam envelhecendo em paz e nem sabíamos disso. Um Pai completamente vivo e uma Mãe jovem.
Uma vez, Mamãe começou a preparar um delicioso “frango assado regado à cerveja e orégano”, prato que ela sempre fazia no Natal a pedido de meu Pai.
A meia noite em ponto o banquete foi servido. Mas como era de costume, o frango não estava com o sabor de sempre. Mesmo assim nada foi falado pra não chatear a Mamãe.
Não se contendo, com toda simplicidade do mundo, meu Pai falou à mesa:
-O frango hoje parece que está meio “doce”...
Aquilo soou como elogio e seguimos comendo o famoso frango.
Depois, minha mãe foi dar uma pequena geral na cozinha quando encontrou um pacote de “erva-doce” ao lado da panela no fogão. A erva-doce foi confundida com o orégano e colocada por engano no frango. Depois de contar sobre o engano demos muita risada do fato.
A partir daquele Natal, por recomendação de meu Pai, Mamãe começou a fazer “frango assado regado à cerveja e ‘erva-doce’ ”.

A SAUDADE:

O amor tinha ritmos que desembocavam na saudade. A serenidade dos retratos amarelecidos pelo tempo confirma isso, assim como as batidas das lembranças no peito.
Minha casa, aquecida e doce, não tinha jardim. Mas era como se flores existissem e alegrassem certos Natais. Só faltavam mesmo anjos voando de lá pra cá.
E era de anjos que Papai e Mamãe chamava por nós quando era hora de dormir. Hora de sonhar outros sonhos inesquecíveis de Natal...

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