Catarse


Por descuido do tempo, eu não vivi os dias amargos da fila corinthiana que acabou em 1977 com o gol do Basílio.
Nascido em 1973, pude perceber a existência de um time chamado “Corinthians” apenas em 1979, com o time já campeão.
Mas mesmo sem ter vivido aquela longa fila, costumo dizer que algumas derrotas entristeceram muito de lá pra cá. E foi justamente em uma derrota para o São Paulo antes das finais do campeonato paulista de 1982 que me vi como corinthiano de verdade.
A queda para a segunda divisão em 2007 foi para a minha geração o ponto alto deste sofrimento. Nem as batalhas contra o Palmeiras nas Libertadores de 1999 e 2000 onde saímos derrotados doeu tanto.
Ironia? Não.
Porque com o passar do tempo, o torcedor corinthiano incorporou o rótulo de “sofredor” cantando e agradecendo a Deus por isso. O sofrimento tem a astúcia de nos levar além.
Algumas derrotas, desenhadas pelo silencioso plágio da vida designado destino, firmaram com a identidade corinthiana um aspecto evolutivo. Foi assim que a torcida cresceu.
E para o corinthiano, uma partida de futebol não começa apenas quando o juiz apita. O jogo do Corinthians começa na véspera, na noite mal dormida, no medo da derrota, na proposta de vitória, no valor incalculável de um simples empate. Nas rezas intermináveis, nos contatos supremos com os patuás, rosários, trevos e sei lá o que mais. O “corinthianismo” é então muito mais místico que real e faz a gente pressentir que algo se desenha no âmago do desconhecido e que será capaz de implodir a angústia um dia.
Assim, num ponto entre o efêmero e o eterno, redigimos a nossa história e firmamos a verdade de que “corinthiano vive de Corinthians”.
As taças e as vitórias apenas servem para brindar a alegria que nos arrasta...