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Sonhos


As nuvens carregadas daquele céu de domingo não tinha dado brechas para o dia esboçar nenhum raio de sol.
Não havia dormido direito pensando naquele dia importante.
Acendi um cigarro e, no meio das baforadas, li de relance as manchetes dos jornais na banca. Não tirava a decisão da cabeça.
Entrei no buteco costumeiro e pedi um café dando uma última tragada no bendito.
Olho de repente e, no fundo do bar, quase na penumbra daquele dia carrancudo, um cara tomava uma cerveja logo pela manhã.
Tive a nítida impressão de que o conhecia de algum lugar.
Voltei para o meu café namorando um pastel na vitrine.
Com tantas fisionomias na mente, lembrei-me dele e levei o maior susto: Era o Tite, treinador do Corinthians.
O dono do bar, que lavava alguns copos na pia, respondeu minha pergunta antes de ser feita:
“É ele mesmo. É o Tite.”
Tentei reagir com naturalidade a presença dele por ali. Pensava aflito qual seria minha resposta se ele viesse em minha direção e me perguntasse: “Amigo, Moradei ou Wallace, quem eu escalo hoje”?
Tomei coragem e fui ao seu encontro. Pedi licença e me aproximei.
Notei um homem com os olhos vermelhos, aspecto cansado. Garrafa quase vazia, copo raso.
Com a autoridade de um ex-boleiro dos tempos áureos do “Campo da Santa”, olhei-o nos olhos e disparei:
“Tite, nem o Moradei, nem o Wallace. Escale o Edenílson hoje”.
Ele me tratou como um velho conhecido. Décadas de intimidade.
Discutimos tudo, inclusive futebol.
Antes de ir embora, disse-me que não dormiu nada esta noite. “Pensava na decisão”. Éramos dois.
Acabei por pagar sua cerveja, pois ele não tinha dinheiro trocado.
Comprei pães e leite pra patroa e um maço de Hollywood.
Deitei novamente tentando pegar no sono, mas não consegui. Segui assim o dia todo.
Com o horário do jogo chegando, relaxei. Não pensava mais na decisão. Nem ia adiantar muito.
Com gol de Moradei, Wallace ou Edenílson. nada importaria.
Pensava agora num sono mais feliz. Num sono de pentacampeão...

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