O esplendor das manhãs


Do meu quarto, mal vejo o dia clarear.
Só sei dessa dádiva porque um casal de Sanhaços me avisa. Mais meia hora tentando cochilar e já é o momento de levantar pra encarar o dia.
Eles dois não se desgrudam e cantam mesmo parecendo querer num rebento criar poesia logo cedo.
O barulho do chuveiro e o rádio de pilhas afastam por um momento a sonoridade desses dois.
Nessas alturas, em disputa com os ponteiros do relógio, o dia já está tomado por outros sons deixando o casal azulado encoberto.
Na dieta da manhã me acompanham até a hora do almoço duas bananas.
Mais abaixo, na rua, na calçada paralela ao muro do velho cemitério, um pé de acerolas banhado pelas nevoas da madrugada, instalam a rubra cor de seus frutos a alheios distintos. Eu, na pressa do instante, sou um desses, reforçando meu café.
E lá também está o casal de sanhaços gulosos na refeição matinal.
Ao me verem, esvoaçam assustados e pousam no fio acima.
Com toda licença, enfio meus braços entre os arbustos em busca da mais suculenta delas. Eles de longe observam.
Ao alcance das mãos, uma, duas, três acerolas me vem bicadas dando-me a impressão de ter chegado tarde. São sempre as mais vermelhas.
Pequenos frutos num tear de sabores que me permitem também voar.
Eles vão e vem saltitantes e parecem rir de mim.
Molhado pelo orvalho das ramagens corro depressa para não perder meu ônibus.
Eles vão embora imprimindo a liberdade no céu. Um céu de cores e tons ajustados secretamente por Deus.
Vão cantarolando a beleza sonora da vida em doces acerolas bicadas pra mim...

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