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"Santa ressaca"


Era dia 1º de novembro, dia de todos os possíveis santos existentes por aí. Anos setenta, auge da liberdade psicodélica e dos embates contra o impregnado militarismo. Madrugadas subversivas tramadas nos subterrâneos da história em mesas de bar.
Meu amigo Nivaldo já era um dos maiores violonistas da época. Conhecedor profundo de todas as manifestações da MPB. Seu aniversário era naquele dia 1º e depois de perambular pelo “Choppão” e pelo Bar do Nenê, foi parar mesmo no último escape da madrugada:
o Ce Ki Sabe, que ficava ao lado da prefeitura, bem perto de sua casa ali na Rua Floriano Peixoto, ao lado do cemitério.
Era a alegria que infestava os ares dali. Chico Buarque rolando solto na vitrola em canções consideradas verdadeiras “bolas por entre as pernas da ditadura” e que iam driblando a censura com suas letras subversivas escondidas entre metáforas poéticas.
Lá pelas tantas, Nivaldo tomou do violão e evocou Vinicius de Moraes. Veio junto Caetano, Vandré, Gil. Alugou a madrugada embrenhado em acordes históricos sem se fazer necessário fiador. Mas a madrugada foi passando...
Cerveja quase se esgotando no freezer. Repertorio sumindo da memória. Era hora de ir.
Subir a Rua Floriano Peixoto em noite de lua quase o fez voltar e garimpar outro bar pela noite. Mas por sobre o muro do velho cemitério Santa Rita viu as luzes dos intermináveis lugares desta finalidade apagadas, inclusive o Bar do Ananias.
Alguns passos cambaleantes seria necessários até chegar em casa e desmaiar feliz na profundidade dos sonhos.
O dia seguinte era Dia Finados e bem cedo, os auto-falantes já se manifestavam em orações pelos mortos no cemitério velho. A primeira missa seria celebrada às 7 horas da manhã pelo Padre Fré.
Desprendido da realidade, o boêmio, em meio à ressaca e muita dor de cabeça, acordou de repente quando os auto-falantes começaram a tocar:
“... Com minha mãe estareeeei, na santa glória um diiiiia”...
O susto do boêmio foi tão grande que ele quase caiu da cama. Com a boca seca e a cabeça estourando pensou rapidamente:
“Meu Deus do céu, eu morri!”...
Um milhão de ressacas vieram e ainda estão por vir.
Mas talvez nenhuma tão abençoada como aquela, despertada antes da hora naquele distante “dia das almas” na Santa Rita...

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