A fuga


...Enquanto ela ia pra casa da irmã passar o domingo todo, ele prometia que ia se comportar e ficaria em casa, acompanhando o jogo pelo rádio. Sim, pelo rádio mesmo. Sentado quieto no velho sofá da casa.
O futebol, aquela paixão alvinegra que a esposa tanto odiava, tinha uma conotação ainda mais romântica quando o rádio de pilhas trazia a emoção do jogo. Romantismo que deixava a mulher ainda mais enciumada, pois parecia mesmo que “ele amava o Corinthians e torcia pra ela”.
Só que aquele dia era dia de decisão. As mãos trêmulas suavam e era preciso dar vazão aquele nervosismo. Precisava xingar, falar palavrão, gritar o nome do time, se esbaldar numa cerveja bem gelada. Perder a voz literalmente. Depois sair para o abraço. Só mesmo uma paixão assim era capa de fazê-lo trair a confiança da amada. E ele não se conteve...
Tinha que torcer também para que o celular não tocasse. Ou, se tocasse, um silêncio conjunto pudesse clarear sua voz no telefone sem denunciar a “fuga para a busca da evolução do ego” em que se metera. No desenho da mente, ela nem poderia desconfiar que o sofredor tivesse arredado os pés de casa.
E assim foi crescendo o sofrimento até que, o celular então toca. Foi tomando conta também a dúvida em atendê-lo ou não.
Quando o bar enfim esboçou um volume menos acentuado, ele atendeu:
“Oi querida, tudo bem aí?”
“Eu é que pergunto: Porque você não quer atender essa porcaria de celular?”
“Não é que eu não queira atender meu amor, ele ficou fora de área”.
“Mas em casa o celular nunca fica fora de área. Você está em casa mesmo ou não?”
“Claro que estou querida, perfeitamente acomodado no nosso sofá”...
Na mesma hora em que tentava engabelar a mulher, num cruzamento perfeito, depois de uma linda jogada, o armador coloca a bola na cabeça do centroavante e gooooooooooooollllllll!!!!
O bar explodiu. E na confusão da festa o celular caiu de suas mãos e foi parar longe. Pisoteado, não quis mais ligar ante a comemoração.
Por razões que somente o imponderável é capaz de explicar, a festa ficou para a última rodada.
A dúvida agora não era se o time seria campeão ou não no próximo domingo. Mas como explicar aquele grito ensurdecedor “acontecido” na sala da casa. Ou, se acostumar com o velho sofá feito cama por um bom tempo sem fugir das dores nas costas depois...