Pular para o conteúdo principal

Além luzes


Foi a saída do último carro por ele vigiado naquela rua que fez com que o barulho das moedas em seu pequeno bolso fluíssem com mais força. Ele já tinha em mente o que compraria com elas.
Não seria nenhum brinquedo. Mesmo porque, achava que estava “crescendo”. Todavia, este sentimento lhe tomava claramente, pois, era intimado pelo pai para ir à rua vigiar carros e ganhar algum trocado mísero. Isso parecia-lhe coisa de adulto.
Contrariando a fome familiar eminente, foi direto a uma dessas lojas recheadas de artigos de natal. Aquele clima enchia-lhe os olhos. Assim ele foi direto naquilo que mais ansiava comprar: Um colorido pisca-pisca.
Com certa consciência, dispensou a sacola plástica oferecida pelo balconista e foi pra casa.
No caminho, janelas esculpiam o belo embaladas pelo clima do Natal. Pessoas apressadas caminhavam cheias de pacotes. Ele segurava forte o seu, pensando na felicidade de sua mãe ao se deparar com aquelas luzes clareando o breu da casa. Isso lhe tomava por inteiro, pois não aguentava mais o cheiro de velas acesas espalhadas pelo chão da casa e pelas arruinadas e carunchadas mobílias que restavam por lá.
Chegou ofegante. E antes que seu pai, desempregado há anos, pudesse lhe cobrar pelos rendimentos do dia, ele entregou sua pequena caixa. Junto, ia um pequeno cartão que trazia a velha frase “Feliz Natal”.
O pai, levemente alcoolizado, mais pela desgraça da vida miserável do que pelas pingas brindadas no dia, não teve forças para lhe dar bronca.
A mãe travava com a torneira uma luta desigual. A água, que acontecia escassa, na bacia ia banhar o menino escurecido pelo tráfego poeirento do asfalto da rua.
Arrasado, o pai apenas tentava achar um jeito de explicar a falta de energia no lugar.
Iluminado pelas velas tentava enxergar a data de vencimento de uma nova conta de luz que havia chegado na tarde daquele dia e que ele, igual as outras dos meses anteriores, também não ia ter condição nenhuma de pagar...

Postagens mais visitadas deste blog

O chifre

Por conta de minha filha Larissa estar tendo febre há uns três dias, uma tia de minha esposa, em conversa por telefone, foi sucinta em seu comentário: “Essa menina está assustada ou aguada por alguma coisa”... De fato, em duas idas ao pronto socorro, os pediatras não conseguiram detectar nenhum problema mais grave. Não era garganta, ouvido ou algum dentinho nascendo, o que estava causando estranheza pela febre decorrente. Além de dar o “diagnóstico”, a tia foi logo dizendo o “antídoto” para a cura: chá de hortelã com raspas de chifre de carneiro. Vivi entre as crendices populares típicas de cidades do interior. Convivi com todos os meus avós e minha mãe, nos arautos dos seus 78 anos, ainda prega essa cultura popular de usar plantas e métodos pouco convencionais para curar algum mal. Assim sendo, mesmo cético para algumas coisas na vida, lá fui eu tentar encontrar o tal chifre... Não me aventurei em outro lugar sem antes passar pelo mercadão de Guaratinguetá. A minha intuição estava a…

A Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida

Segundo o relato daquelas humildes pessoas, foram tantos peixes logo conseguido, depois de “aparecida” a imagem, que a canoa ficou cheia. Até ameaçava afundar. Alegraram-se muito com o ocorrido e foram levar o pescado à Câmara Municipal de Santo Antonio de Guaratinguetá, mas primeiro passaram pela casa de Felipe Pedroso e deixaram a preciosa encomenda confiada aos cuidados de Silvana da Rocha, mãe de João, esposa de Domingos e irmã de Felipe. Puseram-na dentro de um baú, enrolada em panos, separada uma parte da outra.
A casa de Silvana foi o primeiro oratório que teve aquela imagem e ficou com ela cerca de nove anos, até 1726, data provável de seu falecimento. Assim tornou-se herdeiro da imagem seu irmão, Felipe Pedroso, o único sobrevivente da milagrosa pescaria.
Sua casa foi o segundo oratório, por seis anos, perto da Ponte do Ribeirão do Sá (proximidade da atual Estação Ferroviária) e também o terceiro, por mais sete anos, na Ponte Alta, para onde se mudara. Em 1739, Felipe Pedroso …

“Heart and Soul”, homenagem ao Nicolau Samahá.

Mesmo mais de trinta anos após sua morte, sempre ouvimos falar de que “Elvis não morreu”. Contudo, Elvis é ainda “o morto que mais vende discos em todo mundo” até hoje. O branco que tinha voz de negro. Elvis deixou este plano no dia 16 de agosto de 1977.
Quando criança, todo dia eu subia à Praça da Igreja Velha pra levar almoço pro meu irmão Roberto Dias que trabalhava no Foto JK. Subia distraído e ficava encantado com os brinquedos dependurados nas portas das muitas lojas que supriam o caminho que levava até à praça. Mas era uma loja em especial que me fazia chegar atrasado ao meu destino: a Loja do Nicolau Samahá. O dia inteiro o ele ficava tocando na vitrola as músicas inesquecíveis do Elvis Presley que me deixavam encantado. Fora isso, as paredes de sua loja eram forradas com pôsteres gigantes do Rei do Rock por todos os cantos. Ele também se fazia parecer muito com o ídolo: Alto, cabelos com topete e costeletas enormes. Camisas chamativas e de golas altas. Parecia o próprio Rei do…