As forças do além


Domingo nublado.
Vou descendo então a rua do cemitério Santa Rita em direção ao Bar da Jane para assistir ao jogo do Corinthians. Quero esquecer que ali, há anos atrás, era um reduto especialmente de anti-corinthianos, visto que antigamente era o bar do saudoso sãopaulino João Donaldo. Era na ponta do balcão que também ficava secando o timão o falecido Dito Guará, palmeirense clássico nas curtições. Os jogos não passavam na televisão como hoje em dia. Era o rádio a fonte inesgotável de combustível do imponderável.
Com a apreensão estampada no rosto, sigo acreditando que este ano meu time possa ser Pentacampeão do Brasil.
Quando o jogo começa, recomeça o sofrimento. Pra gente é sempre assim.
Vou me concentrando então em todas as possíveis ajudas que do além venham a dominar o destino da bola e jogá-la no fundo das redes adversárias.
Penso em todos os meus amigos corinthianos que já partiram desta pra melhor e, numa espécie de transe espiritual, vou mentalizando baixinho o nome deles todos:
“Márcio do Bar, Varti Guedes, Matheus, Roberto Gouveia, iL, Oswaldinho Elache, Dona Glória, Seu Arthur, Edgar, Toddy, GG, Joaquim Dias, Cabide, Flávio Rangel, Régis, Nedi, Dito Freitas, seu Zé Affonso, Fábio Wendlling, Dona Celeste Caetano, Flávio Magrelo...”
“Será que esqueci alguém?” Me permito responder que não. Nada poderia dar errado e essa dúvida acarretaria de repente numa suposta derrota e eu não me perdoaria por isso.
Arremato o estado em transe com uma Ave-Maria e o sinal da cruz lampeja minha proximidade com Deus.
Vou esperando que, com o rolar da bola, estejam todos ao lado deste sofredor e que fiquem pairadas no ar apenas as forças leais ao corinthianismo vigente nas veias, com todas as repartições e manifestações “do contra” indo para além, muito além dali.
Batizo tudo com uma cerveja que o balconista me traz e entro num outro estado de espírito. Na dimensão em que todo corinthiano se estabelece e renova a força da espera por dias mais felizes...