O fantástico mundo dos nomes.


Usar a língua e sua significação simbólica para apropriar-se do mundo tem sido uma constante desde os primórdios humanos. Analisar as origens dos nomes próprios é uma forma de resgatar fatos sociais, culturais e religiosos aparentemente perdidos, mas devidamente registrados nos fragmentos de significação, intactos nos nomes superpostos durante os séculos, proporcionando um resgate de memória coletiva.
Pouca gente sabe que o Brasil já teve oito nomes antes do atual: Pindorama, nome dado pelos indígenas, Ilha de Vera Cruz em 1500, Terra Nova e Terra dos Papagaios, em 1501, Terra de Vera Cruz e Terra de Santa Cruz em 1503, Terra Santa Cruz do Brasil e Terra do Brasil em 1505 e finalmente Brasil, desde 1527.
Quando eu trabalhva no Pronto Socorro de Aparecida, o programa de busca do computador para efetuar prontuários era simples: A gente digitava o nome e se o paciente já tivesse cadastro era só emitir a ficha. Em algumas vezes era preciso cadastrar o nome pela primeirra vez. Nessas horas era que alguns nomes impressionavam pela originalidade. Quem sofria com isso eram as crianças cujo os pais usavam e abusavam das letras “K, Y, e W”. Isso quando não misturavam nomes em “inglês” com sobrenomes populares deixando um tanto brega “aquilo” que a criança vai carregar pelo resto da vida.
Por lá em muitas vezes as mães precisavam soletrar ou escrever o nome para efetuar a busca. Os nomes mais difíceis de digitar são “karolayne”, que também pode ser “Caroline” ou “Querolyne”. O famoso “Kauã”, que também pode ser “Cauan” ou “kawan”. “Khetyli” que varia em “Ketyllyn” ou “Ketillen”. São rostos que a gente nunca esquece e nomes qua a gente jamais se lembra.
Ao longo de quase seis anos, já passaram por mim no Pronto Socorro nomes próprios como “Audiéria, Pierina, Clázio, Clelma, Diúla, Krésley, Leósis, Lindce, Logan, Neurivan, Onésimo, Orosina, Silênio, Cliguer, Núria, Ocimar e Stael”.
Na década de 80, pesquisas em cartórios de todo Brasil realizadas por autores de livros especializados trouxeram uma pequena amostra da criatividade do povo brasileiro onde se encontravam entre outros: “Agrícola Beterraba Areia, Antonio Treze de Junho de Mil Novecentos e Dezessete, Benedito Camurça Aveludado, Carabino Tiro Certo, Chevrolet da Silva Ford, Colapso Cardíaco da Silva, Comigo é Nove na Garrucha Trouxada, Dezêncio Feverêncio de Oitenta e Cinco, Esparadrapo Clemente de Sá, Faraó do Egito Sousa, Hidráulico Oliveira, Ilegível Inilegível, João Cara de José, João Sem Sobrenome, José Maria Guardanapo, José Xixi, Lança Perfume Rodometálico de Andrade, Magnésia Bisurada do Patrocínio, Manoel Sovaco de Gambar, Maria-você-me-mata, Naida Navinda Navolta Pereira, Necrotério Pereira da Silva, Oceano Atlântico Linhares, Pália Pélia Pólia Púlia dos Guimarães Peixoto, Restos Mortais de Catarina, Simplício Simplório da Simplicidade Simples, Tropicão de Almeida e Último Vaqueiro”.
Certa vez, um repórter da Globo entrevistou um pai que queria colocar o nome em seu filho recém nascido de “Bin Laden da Silva Ribeiro”. Foi bem depois que o terrorista mais famoso do mundo derrubou as torres Gêmeas em Nova York.
Também no Rio Grande do Norte, uma mãe de 28 anos tentou registrar sua filha recém nascida com o nome de Jabulani. Contudo, o tabelião não fez o registro, alegando que, depois que a moda da copa do mundo passasse, a criança sofreria com o nome, causando arrependimento e frustração.
Bom, até aí, tudo bem. Jabulani dos Santos não fica tão estranho. Mas já pensou uma dessas senhoras decidirem colocar o nome da criança de “Vuvuzela de Souza” ?
Não. Aí já vai ser demais...

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