Histórias de Pronto Socorro


Dia 1º de julho.
Uma data deveras inesquecível. A começar por ser o dia do aniversário do meu irmão Roberto Dias e por marcar exatamente um ano em que fui despedido do Pronto Socorro da Santa Casa de Aparecida depois de quase seis anos e por razões obscuras até hoje.
Foi um tempo onde convivi em realidade com as madrugadas solitárias e as amarguras do setor de saúde pública. As falhas nos atendimentos, as tristezas por perdas de ente queridos e as vilezas de alguns médicos que se sustentavam apenas pelo poder defasado de seus carimbos registrados. Existem médicos e MÉDICOS. Nestas horas, é inevitável que eu me lembre do meu amigo Corinthiano Doutor Lourenço, o pediatra que cuidou até de mim quando criança e que tive o privilégio posterior em trabalhar junto.
Pronto Socorro é um lugar onde quase tudo inspira tristeza: sangue, morte, agressão, brigas, bêbados, doença, tiro, mau humor, choro, acidentes. É raro uma noticia boa. A única que acontece é quando nasce uma criança na maternidade anexa. E mesmo assim, tentando se infiltrar no direito do pai do recém nascido, avós, tios, sobrinhos, primos, cachorro, papagaio, rádio, achando que também podem entrar fora do horário de visita. Isso era estressante.
O que ficou daquele tempo, fora a amizade feita (Gil, Benê e Frei Bento são uns deles) e a boa vontade de pessoas em levantar o nome da entidade que completou 75 anos de luta, são as inúmeras situações pitorescas que envolvia o lugar. Sempre acontecia algo inusitado. Era um cidadão reclamando atendimento para seu cachorro picado por uma cobra, uma freira num sábado de aleluia com um garfo entalado na garganta, uma caixa com uma perna amputada dentro que eu tive que carregar até o necrotério, vultos pelos corredores escuros, ligações hilárias pelo 192, madrugadas compostas por figuras ilustres, andarilhos de histórias épicas, cães protegendo o lugar, assaltos planejados minuciosamente na geladeira farta dos médicos, politiqueiros se achando donos do pedaço, frio cortante nas madrugadas, noites de calor intenso e cheias de insetos, prodígios e prognósticos, lembranças e saudades. Situações efêmeras e eternas.
Muitas destas histórias puderam ser, ao longo do tempo, publicadas ora pelo Jornal Tranca e Gamela do amigo Renato, ora pelo Jornal Comunicação Regional do camarada Cabral. E intercaladas, muitas poesias feitas e inspiradas nestas madrugadas de plantão, que graciosamente foram registradas nas publicações do Jornal O Lince, do Professor Alexandre Lourenço. Poesias que em julho serão publicadas num primeiro livro de fragmentos poéticos.
E dentro dessa literatura urbana, algumas passagens então ficaram eternizadas na memória e neste blog. Uma delas, inesquecível, a qual chamei de “Canonização”, republico agora para deleite de meus leitores:

Certa vez,o motorista Manoel que dirige a ambulância do Pronto Socorro onde eu trabalho, trouxe uma moça que se acidentara com sua moto na Avenida Itaguaçú.
Socorrida prontamente pela equipe de enfermagem, fui fazer sua ficha de atendimento e elaborar um boletim de ocorrência do fato.
Ao indagar a moça sobre seu endereço ela me informou que era de Guaratinguetá e morava no Bairro São Manoel. No exato instante em que ela dizia “São Manoel”, o motorista da ambulância entrou de repente na sala de emergência e se fazendo de “galã” falou com a voz sedutora para a moça:
“Eu não sou santo não meu anjo. Pode me chamar só de Manoel mesmo”...
A moça, com suas dores, na maca, nada entendeu. Eu também demorei alguns segundos tentando compreender de onde ele havia tirado que se tratava de uma “canonização”...
Um abraço a todos.