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Restaurando almas

Por conta de ter vivido quase toda sua vida embrenhado na arte da fotografia, meu saudoso pai Joaquim Dias uma vez me disse:
"Acredito que o retratista tem de ter uma fidelidade canina quando algum romeiro o procura na praça para bater algumas chapas da família que vem n’Aparecida. E não pode ser de outra forma. Afinal, o retratista tem esse dom mágico de aprisionar a alma".
Na prática quase comum de garimpar a memória fotográfica de Aparecida, eis que numa tarde, estou passando em frente a um ferro velho na Santa Rita quando por um estalo acabo perguntado ao Carlinhos, proprietário do local:
-E aí Carlinhos, apareceu algum “caixote” por aí?...
-Lúcio, você não acredita o que eu “apanhei” de uma senhora lá na Ponte Alta semana passada. Até me lembrei de você...
Entre tanta tranqueira empilhada no espaço, pareceu que algo luminescente se destacava entre as coisas velhas. 
Chegando mais perto, enquanto o Carlinhos tirava a poeira de um tempo, pude visualizar melhor a incrível máquina do tempo: era uma antiga máquina lambe-lambe, cuja placa de identificação mostrava o número 10 e o ano de 1977.

Desnecessário dizer sobre meu êxtase diante daquilo. Era como se eu estivesse a ponto de voltar no tempo. Reencontrar os detentores deste poder mágico.
Feito o “rolo” com o Carlinhos, tratei de levar a relíquia embora antes que alguém o fizesse.
No fim de semana subseqüente comecei a restaurar a máquina que, por descuido ou desinformação, acabou sendo toda pintada de esmalte marrom, o que naturalmente descaracterizou seu porte. 

A parte de cima, onde tem uma chapa de alumínio e o carregador, também foi pintada, assim como o vidro fosco na parte de dentro onde é refletido a pessoa de cabeça pra baixo. O tripé, feito de pinho de Riga, tinha uma perna quebrada, estando remendado com fita colante. 
O fole de couro também sofreu a ação do tempo e das químicas usadas e estava quebrado junto à parte acoplada ao caixote. Fora isso tudo, ela estava imunda por dentro. Empoeirada e cheia de teias de aranha. Faltava a lente objetiva. Havia apenas o buraco dela. A máquina é a de formato menor, muito provavelmente feita pelo famoso Gabrielzinho.
Nas partes laterais, onde se tinha o costume de colocar alguns postais criando uma espécie de galeria dos serviços feitos, também pintaram o vidro, escondendo as fotografias. Raspando a tinta com uma espátula foi magnífico ver a fotografia sendo revelada novamente, emergindo da clandestinidade da luz. Um longo e belo trabalho. Minucioso e prazeroso.


Ao passar pelo ferro velho do Carlos aquela tarde, sem perceber, desloquei o tempo, onde se encontrava perdida a velha máquina lambe-lambe de mais de 60 anos.
Sua importância diante do incrível bailar da devoção  ainda faz ela trazer consigo a nítida impressão de eternidade. 
Ao aprisionar a pose, ela também conseguia reter a alma, tanto do retratado, quanto do retratista.
Eu, escolhido para reencontrá-la, vou restaurando a minha alma.
Vou levando para tempos além seu luminescente brilho.  





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