O refém feliz da canção

Me apossei de todos os LPs do meu saudoso pai por algum tempo, depois de sua passagem por este plano. Gostava de ficar ouvindo os ruídos sonoros que acompanhavam todos eles, principalmente Orlando Silva, Carlos Galhardo, Waldir Azevedo.
Limpa daqui, abrem-se as comportas da vida. Muda tudo de lugar. Discos se perdem, arranham e quebram, como dizia Cazuza.
E eles vieram com tudo pra cima da minha juventude: o rock progressivo nos programas “Ressonância” de domingo à tarde. Cazuza infernizando os ouvidos, impulsionando a letargia a gritar, espernear.
Renato Russo trazia então a poesia casual. Amada simplesmente como canção que falava nossa língua. Suas letras constituíram crônicas de uma sociedade falida e consumida por vícios cotidianos dos quais muitos de nós só conseguimos nos libertar graças à ele e as denúncias da sua poesia perfeita.
Bendita década de 80! O rock nacional andando pelas veias: Kid Abelha, Heróis, Plebe Rude, Lulu Santos, a explosão do RPM e eu não queria mesmo me alistar.
Elvis e eu. Beatles. Muita MPB aguçada ainda mais pelo violão certeiro do Nivaldo.
Abracei Gil, Caetano, Chico. Fui em busca da música perfeita e encontrei Vinícius, Paulinho, Candeia, João Bosco. Fitas K7 que iam e vinham naquela eternidade, assessoradas pelo romantismo do auto reverse do toca fitas.
Eis que então começa a chover Cds. Originais, piratas. Incontáveis na estante. Tudo misturado tendo como prato principal os clássicos do Rock Internacional: The Smiths, The Police, The Cure, Queen.
Empilhados e poeirentos, os Cds foram parar no esquecimento. A onda então era o MP3 que carregava mais de mil canções. Logo o tal Pen Drive vinha deslocar essa comodidade para além.
E o Cathedral não soube explicar aos mortais porque o Chorão pôde fazer isso com ele mesmo. E como a Pity, não soubemos mais equalizar esta ausência.
Há pouco tempo ainda consegui ouvir Avicii com a mesma intensidade em que ouvi Shaggy.
As músicas passaram como o tempo. Foi possível ainda encontrar no 4Shared , U2, UB40, B52’s. Matemática perfeita.
Hoje, sigo saudoso de tudo isso. Um tanto resignado, mas feliz, pois consegui decorar em tempo recorde todas as músicas da Galinha Pintadinha pra fazer a Larissa dormir...