...Devolve meu São Jorge!


Noite mal dormida, resolvi saltar para a realidade do dia quando nem eram seis horas da matina.
Dentre tarefas matinais habituais impostas pelo acaso, já ia programando a libertação e seu roteiro pelos bares da província dentro da cabeça.
Ganhando a rua, logo percebo que tudo em volta exala a decisão.
Costumeiramente, desço a rua sagrada do velho cemitério e já vou logo evocando os saudosos “sofredores” dali. Enumero todos eles na mente pedindo proteção. Depois, entro no lugar eterno pra ter uma conversa com a saudosa corinthiana Dona Celeste Caetano. De longe já vejo suas irmãs solenemente vestidas para o jogo na noite...
Entre olhares enevoados, nos abraçamos fazendo da certeza uma fonte inesgotável de energia que transpira confiança. Sinto Dona Celeste nos espiando, parecendo querer desafiar a matemática do tempo e estar ali fisicamente. A força do etéreo transcende.
Depois, pelas ruas o assunto predomina. Todos falam do mesmo assunto. Em todos os cantos, olhares e vozes era notório perceber que o “Corínthians” tinha de ser naquele dia o alento nas filas, o valor nas agências, o remédio do enfermo, o pão do faminto, a muleta do manco, a esmola do pobre, a aguardente nos butecos, a condução do passageiro, a liberdade do detento, o ideal do militante, a ferramenta do operário, a verdade única do político, a droga do viciado, a redenção do suicida, a glória de quem perde, a arma no combate, o destino do retirante, a lembrança do esquecido, o porto na tempestade. O bálsamo da cura de um vazio interminável. Até o extinto ressurgiria de um negro abismo para causar esplendor no nefasto.
Era preciso encarar o dia e a adrenalina. Saciar de lúdico a esfera desta espera. Apagar da mente derrotas e retirar delas apenas os seus ensinamentos doloridos.
Entre tantos amigos a encontrar pela noite, quero apenas um. Foi a ele quem confiei minha pequena estatueta de São Jorge em 2009 com a recomendação de que ele só me devolvesse no dia da nossa redenção, da nossa independência. Na noite que vamos exorcizar todos os fantasmas que há tanto vem nos arrastando correntes aos calcanhares...
Sarava São Jorge!
Vai Corínthians!