Carta ao meu amigo sociólogo


Você tem razão.
Acho mesmo que amor não se mede. Vejo que o que acontece ao corinthiano em relação aos demais torcedores é um “conflito de sentimentos”. Parece que confundem “amor e paixão” com “fidelidade”. E isso vem mesmo desde aquela época escura onde o time do povo ficou sem vencer um campeonato por 23 anos. Foi ali que, devido à fidelidade, a torcida aumentou desvairadamente. A lendária "invasão" ao Maracanã em 1976 ilustrou isso e alavancou essa fidelidade, transformando o feito em uma data histórica.
Isso propõe dois dilemas: é possível amar sem ser fiel? Há fidelidade sem amor? Acho que isso transcende esse conflito que eu enxergo e que muitas vezes soa mal interpretado por colegas corinthianos.
Pra aumentar esse pejorativo de fidelidade, sempre acontece do Corinthians fazer gols espíritas, no crepúsculo de partidas, o que faz muito torcedor achar que algo “de outro mundo” acontece só com a gente. E se ele não ficasse ali, torcendo até o final, a bola em questão não se subtrairia na extração do gol. É assim que muitos se esquecem que o que vale mesmo é a competência da equipe, o trabalho, o entrosamento. Contar com o imponderável é uma falha, pois “ele”, o imponderável, muitas vezes não está nem aí com nossa fidelidade, amor ou paixão que o valha.
Sendo um time de massa, o Corinthians sugere a maioria de tudo. De sentimentos a violência, o que acaba englobando amor, paixão e raiva. Não fosse uma sequência boa de vitórias na campanha da série B em 2008, o reverso de todo “amor e fidelidade” sucumbiria ante o “quebra-quebra” de torcidas (des) organizadas. Isso seria evidente.
Pairamos sobre muitos argumentos futebolísticos, encerramos estigmas, consolidamos na memória feitos vitoriosos ou derrotas doloridas. Tudo isso é apenas uma estratégia de nos locomovermos pelas ruas blindados ante “zoações”. O que libera o amor deveria ser outra coisa, como pessoas por exemplo. Essas sim merecem se banharem na inesgotável fonte de sentimentos. O resto serve apenas para propor brindes e noites mal dormidas.
Brindemos o amor à vida, às pessoas. Deixemos aos clubes uma parte boa de nossa angústia, alegria e... fidelidade. Assim podemos transformar o maquiado fanatismo em felicidade, sem correntes pesadas que possam amarrar conflitos pessoais e coletivos.

Um abraço com afeto do seu amigo agora também (enfim) Campeão da América...