As goiabas


Era uma senhora de nome Áurea e de sobrenome famoso quem estava sendo velada naquela manhã no cemitério Senhor dos Passos.
Muita gente na entrada do lugar denunciavam a importância dequela que partia.
Entre tantos dali, um garoto que aparentava ter uns sete anos, já se deslocava de um lado para outro, incomodado pelo programa forçado e estranho daquela manhã.
Distraída, sua mãe não percebeu quando ele se afastou e começou a andar entre os túmulos dali. Passeava absorto daquela realidade funesta, preocupado apenas em encontrar algo interessante pra brincar.
Logo, alguns passos denunciavam uma grande descoberta: uma goiabeira repleta e generosa encostada ao muro. Sem pestanejar, o moleque tratou de ir ao encontro daquelas goiabas amarelas e grandes, perdidas ali, como almas que descansam presas num tempo singular.
Ao chegar perto, viu que seria impossível pegar alguma, já que elas estavam nos galhos mais altos.
Sem perceber, o coveiro do lugar, vendo o desapontamento da criança, foi oferecer ajuda:
-Eu posso te ajudar se quiser, mas não pode contar pra ninguém que foi o coveiro tá??
A preocupação do infeliz era com a bronca que a mãe do moleque podia lhe dar e ele, entre suas funções, jamais poderia deixar isso ocorrer.
-Se sua mãe perguntar, fala que foi o “anjo” que lhe deu as goiabas viu...
O menino somente balançava a cabeça concordando.
Suas pequenas mãos quase não conseguiam segurar as frutas que ele então colocou na sua camisa, erguendo-a feito um “borná”.
-Pronto! Agora vai lá e diz que foi o anjo que lhe deu as goiabas tá bom...
E assim ele o fez.
Mas bem antes de chegar, sua mãe já lhe encontrara entre os túmulos.
Aos safanões, ela o repreendia por ter sumido de perto dela. Ele insistia que foi o anjo que colheu as goiabas que ele carregava tentando nocautear a sensibilidade da mãe.
Com isso, as goiabas perfeitas para o paladar da criança sucumbiram aos beliscões doídos que a mãe lhe dava.
Pela alameda do cemitério, as goiabas rolaram despretensiosas e suculentas.
E as lágrimas do menino seguiam silenciosas aquele triste rolar...

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