A voz


Meu pai Joaquim Dias nunca votou no Lula.
Por conta disso, teve duas decepções homéricas quando votou no Collor e no FHC.
O primeiro por ter confiscado alguns trocados dele e todas as poupanças do país já no segundo dia de seu mandato, em 1990.
O segundo por ter chamado “todos os aposentados de vagabundos”, num tempo em que meu pai acabara de se aposentar depois de muita luta, no ano de 1992.
Ele sempre dizia que “se o Lula ganhasse, não assumiria”. Na verdade, ele tinha receio daquele Lula metalúrgico, de extrema esquerda. Radical da extensão suprema da palavra. Meu pai infelizmente não teve tempo de rever suas teorias políticas e acompanhar a evolução do metalúrgico à presidência da república. Mas eu me lembro bem de meu pai indo ver o comício do metalúrgico Lula quando este esteve em Aparecida em meados de 1982 quando fazia campanha para o governo do estado. Improvisou um caminhão em baixo da prefeitura, bem em frente ao atual velório de Aparecida.
Já com meu pai falecido e por conta do camarada Maurílio Reis, eu sou filiado ao PT até hoje. Atitude que com certeza meu pai reprovaria.
Por outro lado, minha mãe Maria, quase analfabeta, nunca havia votado na vida. Sempre “deixou” estas questões para meu saudoso pai.
Num certo tempo da história, houve a necessidade de que todos os cidadãos fizessem uma declaração de isentos do imposto de renda. A nova tática de arrecadar fundos do pobre povo brasileiro era obrigatória. Por conta disso, minha mãe, já pensionista pela morte de meu pai em 1999, foi obrigada a tirar seu título de eleitora, pois o volante de declaração de isento necessitava do número deste documento, assim como do CPF.
Corria o ano de 2002, ano de eleição presidencial. E mesmo sem ter a obrigatoriedade de votar por causa da sua idade, minha mãe “encasquetou” que ia votar. E votar no Lula.
Dizia a velha senhora em tom solene e nos arautos de sua importância:
“O Lula nunca ganhou. Está sempre aí na luta. Pela primeira vez na vida eu vou votar e votar nele. E desta vez ela ganha nem que seja na marra”...
Minha mãe, no universo da sua poltrona, entre cochilos merecidos pelo tempo, sabia o que falava, mesmo na condição de quase analfabeta. Pela TV, acompanhava o favoritismo do Lula e sabia da eminente vitória dele em poucos dias.
Como minha mãe, milhões de brasileiros sabiam apenas ouvir. Não se expressavam e carimbavam o dedo na missão trêmula de mudar o rumo do país. Tremiam refeitos pela importância que tinham e têm. Sempre terão. No sentido literal, Lula, um ex-sindicalista, um “analfabeto”, deu a muitos a voz que faltava.
Hoje, na poltrona funda se sua experiência, aos 74 anos de vida, minha mãe se silencia. Outra vez sente que ele precisa de sua contribuição. Acompanha tudo o que a televisão fala sobre ele.
O peso de sua reza ilumina. Tenta abrandar o escuro dessa nova missão do presidente.
E é assim que ela pressente uma nova vitória daquele que nunca desistiu da luta.

Foto: O metalúrgico Lula em comício na cidade de Aparecida em 1982

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