Porque certas coisas ficam...


A vida sempre nos proporciona momentos de surpresa. Agradáveis ou não, acompanham o ritmo da gente recheando a extrema procura de fatos que podem virar estórias, contos e artigos que escrevem sutilmente parte de um cotidiano rico, escondido pelo tempo ou pela ineficácia da nossa curiosidade.
A fim de fazer uma “limpeza” na estante da sala da minha casa, comecei a separar papéis que nada valiam e revistas velhas que já tinham perdido seus valores de entretenimento tendo agora somente o valor confortável para o repouso e alimento de baratas e traças que se escondem da gente nas frestas do dia.
Entre tanta coisa “inútil” uma revista me chamou a atenção. Ela já circulava em casa há muito tempo e eu nunca tinha me detido em suas páginas para conhecer seu conteúdo. Não sei por que transmitia uma coisa de que “eu não poderia jogá-la fora” como muitas outras.
Sem dar muita importância àquele “oculto instinto”, separei-a para depois folhear. A pequena parcela de curiosidade que me detinha era o fato da revista ser um “Boletim para artes gráficas”, editado como um informativo do Departamento de Artes Gráficas da Kodak do Brasil. Revista datada do ano de 1975. Sem tanto interesse comecei a folheá-la e as primeiras linhas que me chamaram a atenção foram algumas letras minúsculas no canto da primeira página que diziam: “Revista registrada no Serviço de Censura do Departamento de Polícia Federal do Estado de São Paulo”. Era tempo de repressão. O militarismo ainda corroia a liberdade principalmente de imprensa. E assim, como quase tudo que era publicado no país, aquela revista não fugiu a regra e teve que passar por essa inspeção dos militares na época.
Na medida em que as páginas iam virando pude perceber que elas basicamente abrangiam em seu conteúdo critérios rigorosos para compra de equipamentos e a utilização de materiais gráficos considerados “revolucionários” para a época. Hoje, logicamente, ultrapassados. Já pregava o “fim da alquimia” no processamento de fotolitos para acabar com “os problemas na revelação nos métodos convencionais”. Destacava já naquela época a “eminente inserção da mulher nos serviços de artes gráficas” que predominantemente era comandado por homens. Percebi então que aquela revista informativa já era uma revolução para aquele tempo.
Quase no final das páginas havia um edital que mostrava o sucesso que foi os cursos de “Branco & Preto e de Seleção de Cores” oferecidos pelo Centro Educacional de Marketing da Kodak do Brasil na cidade de São Paulo entre novembro de 74 a abril de 75, onde profissionais de todo o Brasil puderam conhecer as “últimas técnicas empregadas na fotografia de artes gráficas”, ficando habilitados para um melhor exercício da profissão. Junto de um breve texto seguiam as fotos das turmas concluintes dos cursos realizados. Ainda meio “absorto” com a matéria vi de repente um rosto conhecido e levei o maior susto: era o de meu pai, num curso realizado entre 03 e 07 de dezembro de 1974. O velho Joaquim Dias estava lá, eternizado entre pessoas do Brasil todo. O caractere, entre outros nomes dizia: “... Joaquim Dias da Editora Santuário, Aparecida-SP”...
Tenho certeza que esta revista, agora uma relíquia, ficou “rondando” por aqui até hoje segura por suas mãos daí de onde está, meu velho.
É assim que cada vez lhe encontro e me surpreendo com essa vida que se segue e com o cálculo que se transformou essa distância entre nós.
É assim meu velho fotógrafo que aprendo cada vez mais porque certas coisas permanecem sem nunca desaparecerem com o tempo e nem se perdem de repente por aí como a bestialidade de coisas comuns.
Feliz dia dos Pais...

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