De outros Carnavais...


A bagunça que se formava no dia em que o bloco “Sai que é rolo, deita e rola” desfilava era intensa.
Desde a tarde, a concentração nos botecos da Rua Santa Rita tinha clima de apoteose. Quem não gostava muito da bagunça era o Sãopaulino Ananias. Apesar de faturar uns Cruzeiros extras, ele detestava aqueles bêbados que só entravam no seu bar nessa época de carnaval e folgavam no ambiente como se fossem velhos freguêses do buteco.
Mas o Nanias ficava na dele. Fritando seu pernil pra colocar no pão quando alguém pedia e lavando seus copos na pia. Fazia questão de tratar todos com o devido respeito. Os mais engraçadinhos, eram servidos com uma “Antarctica morna”, pra tomar só aquela e sumir dali. Era sua tática pra selecionar melhor a criantela.
Deu azar quando naquela noite entrou um “curintiano” embriagado no bar e foi logo metendo a mão na estufa que abrigava alguns torresmos fritos. O bacana pediu uma pinga, uma cerveja e foi tirando do bolso uma nota de 100 Cruzeiros, a mais alta da época.
-Eu gosto de beber e pagar pra não dar chance pro dono do bar errar na conta.
Foi o que o Nanias ouviu do camarada que já “trançava as pernas” apoiado no balcão.
Querendo mostrar sua autoridade, o dono do bar retrucou:
-Olha a, a, a, aqui, “cê” bebe quieto no seu ca, a, anto viu meu amigo pra nã, ã, ão complicar pra nóis viu?
Ele nem deu muito ouvido pro Nanias e continuou fazendo sua farra. Outra cerveja, outra pinga e tome nota de 100 Cruzeiros...
A bagunça aumentava assim que as horas da noite arrastavam os ponteiros do relógio. Uma concentração de foliões que bebiam sem se importar com o tempo. Vez ou outra uma discussão e logo o lendário “Brinjela” fazia nascer novamente a alegria.
Nessas auturas, o bacana cheio da grana não estava mais conseguindo parar de pé. Aconselhado por um amigo acabou indo lavar o rosto na pia do banheiro do Bar do Nanias.
Mas a demora do bebum que se trancara lá dentro foi irritando o Nanias que já não conseguia nem falar mais, gaguejando de tão nervoso.
Sem ter o que fazer, já que o balcão estava lotado, com uma caneta ele escreveu numa folha de papel de pão a frase: “banheiro estragado”, e colou o cartaz na porta do banheiro. Assim ele não se irritaria mais com a “gentarada” querendo usar o banheiro sem poder fazê-lo
O “Bloco Sai que é rolo, deita e rola” desceu enfim a Rua Floriano Peixoto pra ganhar a praça de São Benedito. Foguetes anunciavam a apotesose regada a muita cachaça. Um enorme garrafão, confeccionado pelo Tó Buttignon, era o carro abre alas da festa. Muita gente cantando e dançando se arrastando atrás do bloco comandado pela Binda, pelo Neguito e o Chico Batata.
Em pouco tempo, a Rua Santa Rita acomodou-se num eminente silêncio, trazendo só o velho cemitério como testemunha. Ao longe ainda se podia ouvir os fogos espocando lá no céu da praça.
Varrendo as bitas pelo chão do bar, o velho Nanias levou o maior susto quando o bebum saiu de repente do banheiro acordando de um sono profundo. O Nanias tinha até esquecido dele lá dento.
A pergunta dele foi inevitável e inesperada:
-Ei senhor, dono do bar, que dia que vai sair o bloco “sai que é rolo, deita e rola”?
Apesar de chato, o bacana tinha gasto bem naquela noite. E para não perder aquele “belo” freguês, o Nanias respondeu:
-É amanhã meu a, a, a, a amigo. Já vou colocar agora as cerve, ve, ve, vejas na geladeira pra estar bem ge, e, e, elada pra festa. Amanhã “cê” volta viu...
Ainda cambetiando pela calçada e sem a noção exata do tempo, com o polegar direito ele fez um sinal de positivo pro Nanias. Nem lembrava que o “amanhã” era quarta-feira de cinzas.
Antes de abaixar a porta de aço do buteco, Nanias foi conferir se o bebum não tinha deixado cair nenhuma nota no chão do banheiro.
O único barulho então foi do “Corcelzinho” verde levando o velho Nanias pra casa com o bolso cheio de notas de cem. Nunca havia faturado tanto.
Nem em outros carnavais...

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