Minúsculo mundo.


Chegar ao Pronto Socorro pra trabalhar nos dias em que o Papa Bento XVI esteve em Aparecida foi difícil. No último dia da visita dormi no ponto.
Tranquilo por se tratar de um domingo, tomei o rumo do meu serviço e só fui cair na real quando cheguei à Praça de São Benedito. Na Rua Barão do Rio Branco percebi o tumulto e o trânsito desviado. Foi então que eu desci a Rua Santo Afonso e segui pela calçada da Rua Valério Francisco até a esquina com a Licurgo Santos. Meu problema começou ali.
Devido ao gradil, me vi impedido de atravessar. Atrasado, chamei um recruta e lhe expliquei a situação:
-“Eu estou precisando atravessar a rua até a outra calçada, pois trabalho no Pronto Socorro em frente. Há possibilidade de quebrar essa pra mim?”. Ele respondeu:
-“Você tem que pedir autorização para o sargento. Não estou autorizado a deixar ninguém passar. Preocupado com meu horário eu retruquei:
-“Amigo, você não está me entendendo. Eu preciso bater meu cartão de ponto às 19 horas e já estou atrasado. Não posso esperar o Papa sair se não vou me complicar”...
Esboçando uma má vontade ele se dirigiu ao seu superior e comunicou o fato. O sargento, no mesmo ritmo se dirigiu a mim e foi categórico:
-“Sinto muito, mas ninguém está autorizado a passar”. Aí eu me revoltei:
-“O senhor também não está me entendendo, eu preciso trabalhar. O senhor está me tirando o direito de ir e vir e isso não está certo”.
Ele simplesmente me disse já me dando as costas:
-“Sinto muito, mas a conduta é esta”.
“Fulo” da vida, me apertando em meio a multidão, consegui depois de algum tempo passar bem em frente a cancela do trem. Corri entrando pela Rua São Vicente de Paulo, ao lado da atual Loja Cem e mesmo assim cheguei alguns bons minutos atrasado.
O plantão seguiu tranquilo apesar da multidão que logo se dispersou depois que o Papa foi embora. De repente, eis que chega até a recepção alguns soldados, onde um deles não estava se sentido bem. E era justamente o sargento que momentos antes tinha me barrado.
Ele veio até a mim solicitando uma consulta. Prontamente pedi suas identificações para elaborar sua ficha de atendimento. Ansioso, ele me disse querendo intimidar:
-“Será que eu posso entrar e depois fazer este cadastro?” Eu respondi:
-“Vamos emitir a ficha, você assina e aguarda alguns minutos e logo o médico lhe chama”.
-“Mas eu não posso esperar. Temos que voltar logo pra desmontar o esquema de segurança aqui ao lado”.
Aí eu parei, respirei e relembrei pausadamente o fato acontecido momentos antes na rua em frente entre ele e eu. Ele ficou sem onde enfiar a cara. Deve ter pensado como o mundo é pequeno.
Sem graça e sem argumentos, me pediu desculpas. Com autoridade respondi:
-“Olha meu amigo, eu até aceito sua desculpa, mas a conduta aqui é esta”. E lhe dei as costas. Quando voltei ele já não estava mais por lá esperando para se consultar.
Muitas vezes, a justa conduta é um “santo” remédio. Pode muito bem livrar as pessoas de alguns males, ensinando algo de bom.

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