Decifrando sonhos.


De tempos em tempos, a fissura que a gente tem de “jogar no bicho”, nos toma de forma imprevista. Quando a gente menos espera está lá, olhando as placas dos carros ou números em algum filme ou na televisão. Contra isso, hoje o “banqueiro” não paga mais números em destaque pra evitar a “quebra” da banca, pois geralmente, a milhar dá.
Contam que o jogo de bicho surgiu no Rio de Janeiro. Funcionários do zoológico, vendo o fluxo de visitantes diminuir no parque, passaram a sortear brindes para atrair o público, que escolhiam um entre os mais variados bichos enjaulados. Alguém muito mais esperto levou a idéia mais a diante, fazendo dessa contravensão algo delicioso. Mas muito mais que isso, o jogo do bicho já faz parte da cultura popular do brasileiro. O papel do jogo muitas vezes age como um “emprasto” para sanar a dor da falta de grana.
Os sonhos são as formas mais influentes nos palpites de quem joga. Existem pessoas que ganham quase sempre. Dizem de uma forma toda distinta que é preciso saber “decifrar” o sonho e encontrar assim o bicho que vai dar entre as cinco mihares do rateio.
Eu só me lembro de ter acertado o bicho uma vez, ganhando alguns Cruzeiros. Meu amigo Loro, criado nesse meio, onde sua mãe Dona Vicentina fez jogo de bicho por mais de trinta anos, me convenceu a jogar no cavalo num dia da Festa de São Benedito, alegando que “devido a cavalaria”, o cavalo viria. Jogamos e ganhamos, dividindo o prêmio. Mas éramos tão crianças naquele tempo que o dinheiro nem tinha muito valor e durou pouco em nossas mãos. Ainda bem.
“Bater a trave” é o que sempre acontece quando o vício de jogar me ocorre. Devido a este azar, fico muito tempo sem arriscar um palpite. E eu tenho tanto azar pro jogo que quando eu e meu Tio João Dias jogávamos juntos, dava sempre o dele, nunca o meu.
Numa madrugada, eu e meu amigo Gil Landim, estávamos de plantão no Pronto Socorro e de repente, chega um Fusca e pára bem ao nosso lado. A centena final da placa do Fusquinha era “883”. Coincidentemente, a placa da ambulância estacionada ali também era de final “883”. O Gil ainda comentou:
“Olha lá Lúcio, que centena boa pra jogar amanhã. Duas placas com final 883”...
Concordei e prometemos jogar no dia seguinte. Só que eu saí às 7 horas da manhã do meu plantão, cheguei em casa moído, dormi até às 5 da tarde e nem lembrei de jogar. Mesmo com a correria do dia, ele jogou uma quantia boa na centena. Mas sem prestar muita atenção, ou não se recordando direito do número, acabou jogando “833”. A frustração ao pegar o resultado do jogo quase o faz ter um infarto: “1º prêmio, 883 na cabeça”. Meu amigo Gil Landim perdeu simplesmente de ganhar 6 mil Reais por um detalhe.
Decifrar os sonhos é imprescindível. Um outro amigo meu sempre leva os seus sonhos de encontro à algum bicho que possa lhe clarear o palpite para apostar. Certa vez ele sonhou que havia alguns gatos em cima do telhado da sua casa e um somente um gato, todo torto, no chão. Sua conclusão foi categórica: jogou 10 Reais num passe de dois bichos, gato e burro. Na hora da aposta, ele ainda contou pro cara da banca o seu sonho. Mas o bicheiro não entendeu de onde ele foi tirar o burro da aposta. A dedução do meu amigo foi simples:
“O gato que estava todo torto no chão, com certeza havia caído do telhado. E gato que cai do telhado, só pode ser burro meu amigo”...

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