Além, mais além...

Dias desses, minha mãe nos arautos dos seus 77 anos, me confessou ao pé do ouvido que queria comprar um celular. “E eu quero um celular deste de última geração, que tem até Internet”, disse-me mamãe.
Ao me deslocar para aquele diálogo com mais atenção, ela lamentou-me ainda:
“Mas eu não sei mexer nessas modernidades”...
“Um celular desses mãe com Internet é um pouco complicado mesmo de mexer. Mas a Internet é uma coisa fabulosa. A gente pode ir a qualquer lugar do mundo por ela”...
E ela pôs-se a pensar naquilo trancada num ensurdecedor silêncio.
Mamãe, por conta da artrose em um dos seus joelhos, quase não sai mais de casa. Fica por ali mesmo, de lá pra cá, escorando na vida e cuidando dos seus garnizés e da casa. Passa quase todo dia sentada ao portão debruçada sobre um tempo, apreciando o bailar do cotidiano.
No mesmo dia, eis que levo até ela a menina Larissa, que nos seus quase onze meses de vida, já ensaia uns passinhos. Conversávamos distraídos observando Larissa brincando no chão quando de repente a menina levantou-se sozinha, sem segurar em nada, e deu um, dois passinhos à frente, sentando logo depois do feito memorável.
Foi uma festa! Mamãe confessou que sentiu o coração disparado. Foi mesmo uma bela surpresa pra todos.
Alguns minutos depois a Larissa ainda repetiu o feito sob os olhares pasmos de todos e sentou-se novamente brincando distraída com algumas pedrinhas no chão.
Creio que mamãe não vai comprar um celular moderno nada. Ela nem tem paciência pra isso. Não vai navegar o mundo pelos bytes da Internet.
Mas eu sei que as batidas do coração acelerado de mamãe a levou mais além, no mínimo mais 50 anos à frente de seu tempo.
Sem uso nenhum de bengala ou tecnologia que o valha.
Tudo amparada nos primeiros passinhos da sua neta Thábata Larissa...