Prosa sobre todas as flores do mundo



Foi realmente um dia muito triste, no qual se desenvolveu em nós uma nova e áspera saudade. Aquele “ser de Luz” era uma espécie de porto, onde por inúmeras vezes muitos aportavam seguros, vindos de tempestades ou apenas de um passeio pelo calmo mar da vida.
Dona Ana era uma pessoa de paz, de sorriso fácil. Aniquilava a tristeza da vida com suas formas simples de viver e de servir.
Seu Célio,seu companheiro por 58 anos, me confidenciou em uma de nossas conversas ao pé do ouvido um fato interessante. Comentávamos da violência que envolveu a vida do seu João Siqueira (João Fominha). Um homem que viveu para o trabalho e que teve sua vida tirada breve e brutalmente. Eu não pude deixar de dizer sobre o tanto de gente que compareceu no enterro do “seu João” naquele dia:
-“Tanta gente eu só tinha visto no enterro do “Penidão”. Quando a multidão chegou ao cemitério Santa Rita já era noite, e eu, moleque, acompanhei tudo “trepado” na cobertura do ponto de ônibus, já que o muro antigo do cemitério tinha ido ao chão para se erguer um muro novo. Mas no enterro da dona Ana também tinha muita gente “...
Ele serenamente disse-me:
-“Olha, a Sarita da floricultura me falou uma coisa interessante. O fornecedor de flores traz flores a ela duas vezes por semana. No dia do passar da Ana, ele teve que vir até Aparecida duas vezes no mesmo dia para trazer flores, tanto foram os pedidos. E ainda ficaram seis coroas sem serem feitas por não ter dado tempo, apesar de a Sarita ter trabalhado a madrugada inteira. Ela disse ainda que só no enterro do Pe. Vitor teve mais coroas de flores encomendadas. Isso desde quando ela trabalha neste ramo, e que não é pouco tempo. Está aí uma coisa boa pra você escrever no seu jornal”...
-“Seu Célio, acreditar piamente no tempo ás vezes insulta a nossa razão.
A mais bela de todas as flores, naquele dia, estava ali, estática diante de nós. “Acho que nem mesmo todas as flores do mundo naquele instante seriam capazes de traduzir toda nossa gratidão e carinho para com a dona Ana”.
O nosso silêncio foi cortado pela voz da dona “Cidinha” o chamando pra rezar o terço na casa não sei de quem. Ele deixou de lado o alicate com que fazia seus chaveiros dourados e saiu. E como era sexta-feira, eu fui tomar uma gelada e tocar violão com o Nivaldo num boteco qualquer dessa nossa vida, levando comigo apenas as lembranças daquele “ser de Luz” e com o instante refletindo na memória um imenso jardim, repleto de saudades de uma das flores mais perfeitas que já existiu.
Lá pelas tantas, um guardanapo de papel ainda testemunhou o garrancho que dizia: “Com a rapidez de uma estrela, uma diferente luz risca a noite renovando o velho céu. O tempo, misturado na ingratidão do acaso, absorveu-se. Viu-se algo numa plenitude inesperada unir toda esperança à saudade.
No pensamento, paradoxos explodiram-se, confundindo toda habilidade poética imergida. Mas de repente, a incompreensão de um momento consegue virar verso. Um verso insistente onde foi possível envolver um a um diante da imagem de um ser.
Rapidamente, expirou-se o tempo, mas não o momento. Desgastaram-se as pessoas em lágrimas de lamento e preces silenciosas, mas, a verdade do instante, não se extinguiu. Tudo pelo amor de uma mãe ausente e por toda imensa obra realizada em vida. Incansável vida.
Absorveu-se o tempo, cobriram-se de amor os corações e diante de tão irreparável perda, a vida ainda conseguiu se inspirar numa luminosidade inesperada, mostrando a forma mais sublime que o ser consegue transpor no exato instante em que, finalmente, entra no céu. Com a rapidez de um anjo, uma luz riscou a noite. Quão lindo é o destino de uma mãe que vira anjo, se torna estrela e passa a ter para sempre um efeito de flor aqui na terra, uma forma de verso na saudade de um poeta “...

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