O velho e o mar.


Marçal era aposentado da marinha.
Sozinho, sua única companhia era um cão policial, um tanto moribundo como ele. Mas seu antigo vizinho Donato sempre vinha saber se o velho Marçal estava precisando de alguma coisa. Vez ou outra faziam um jantar e Donato sempre o colocava na varanda para tomar um pouco de sol.
Corroído pela idade, Marçal já não enxergava direito. Por conta disso e pelo fato de seus óculos terem quebrado outra vez mesmo estando “remendado” com massa epóxi, resolveu dar a velha televisão ao amigo Donato que prontamente, numa feira de barganha, trocou-a por uma Barra Forte usada. Assim Donato fazia inúmeros favores ao amigo como pagar contas, receber o benefício e fazer uma “fezinha” no jogo do bicho. Isso sem contar as intermináveis idas e vindas à farmácia do bairro.
Naquela semana Marçal tinha enchido os ouvidos de Donato para que arranjasse uma garota pra ele. “Aproveita sua bicicleta e vai à cidade ver isso pra mim”.
As ordens do velho depois deste pedido foram absolutas: tinha de ser uma de seus vinte e poucos anos. “Essas têm mais sensibilidade pra fazer o que eu quero”, completou.
Horas depois, Donato chegou com a jovem que portava alguns cadernos em suas mãos. Entrou na sala da casa que cheirava a mofo pedindo que ela aguardasse. O cão policial, que já não policiava mais nada, ia e vinha balançando sua cauda parecendo gostar dela.
Logo, Donato vinha empurrando Marçal na cadeira de rodas. Ao se aproximar, pediu para ficar a sós com a garota. Prontamente Donato saiu.
Meio sem jeito, mas extasiado, Marçal quebra aquele enorme silêncio pedindo para que a moça pegasse uma cadeira vazia no canto da sala e ordenou ímpeto:
“Suba nela por favor”.
Ganhando a altura desejável, Marçal pede que ela vasculhe o escuro poeirento da estante até encontrar algo que há muito tempo ele desejava rever.
“Ele deve estar atrás desses outros livros”, conclui o velho já não cabendo em si de tanta excitação.
A moça desceu da cadeira já não tão trêmula como quando subiu. Marçal ainda perguntou se ela já conhecia aquilo que tinha nas mãos. Sua cabeça apenas balançou em negativa. “Na solidão do mar isso sempre me acompanhou”, balbuciou ofegante o velho já se ajeitando na cadeira como quem se deita numa nuvem. Estava prestes a viajar num longo e saudoso delírio.
E ela começa então a ler as primeiras páginas de um livro escrito em 1952 por um tal “Hemingway”.
Ancorado já há muito tempo naquele caos de solidão, o velho Marçal parecia reencontrar o mar que arrastou por muito tempo a glória juvenil de seus amores esquecidos e submersos na profundidade saudosa de seu peito de marujo...

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