O segredo


Passava quase todo dia pela calçada deixando a vagar por um bom tempo no ar um inconfundível perfume.
Ele tinha como oficio chaveiro. Sempre compenetrado com o enigma que toda chave tinha de “soltar e prender”.
Bastou uma vez. Uma única vez em que ele sentiu o perfume trazido pelo forte vento que por sua vez entrou porta adentro. Ele saiu correndo olhando pra todos os lados tentando ver a flor que havia exalado aquilo.
Numa bela manhã, ele pôde enfim conhecê-la...
Sabedor da hora exata em que a flor voltava, argumentou sua magia sentida num bilhete, o qual mandou um moleque guardador de carros entregar.
Suspense. De longe ele viu a donzela ler demoradamente o papel que dizia:
“Sou um humilde chaveiro e creio que tenho a chave pra abrir seu coração”...
Por dias e dias, nos mesmos horários, indo e vindo, ela permaneceu reclusa ao ato do pobre chaveiro. Nem um olhar, nem muito menos um aceno.
Já descrente daquela cantada, noutra manhã, ao abrir as portas de sua oficina, encontrou um bilhete no chão. Seu coração palpitou mais forte quando começou a ler:
“Agradeço sua gentileza, mas não é preciso somente a chave, mas também o segredo”...
Por algum tempo, ele guardou aquela folha e sempre que podia, olhava-a sem saber “qual o segredo” que ela tinha se referido.
Num dia, sem ter muito o que fazer na oficina, pegou aquela folha com a exatidão de uma certeza e acabou fazendo da folha um pequeno “catavento”.
Enquanto ajeitava o brinquedo de papel entre uma fresta do telhado, pensava como quem canta uma prece:
“O vento trouxe-me seu perfume. Quem sabe o vento também me revele o segredo de como um dia cultivar você minha flor”.
E seguiu resignado em busca daquilo...

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